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Luiz Carlos Merten

25 Junho 2008 | 21h03

ESTOCOLMO – Estou cada vez mais curioso para chegar a Farö. Eles aqui pronunciam Fiur-ô. Todo mundo fala que é um lugar maravilhoso, mas remoto, que não se presta ao turismo, exceto o dos cinéfilos, justamente por ser um lugar ainda selvagem. A primeira advertência é que Farö, no verão, tem sérios problemas de abastecimento de água e o mínimo que se pede é que os visitantes atentem para isso. Lá não se deve desperdiçar uma gota, uma regra que poderia começar a valer para outros lugares, mas esta seria outra história. Para quem perguntou – ‘Através de Um Espelho’, por volta de 1960, foi o primeiro filme de Bergman com cenas filmadas em Farö. Ele voltou depois em ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam), comprou um vasto terreno e construiu uma casa, sobre a qual há hoje uma polêmica que chegou ao Parlamento sueco. A família quer vender a casa. O governo não sabe se compra, porque acha que o próprio Bergman, se assim quisesse, teria deixado instruções. Ao mesmo, parece insuportável que o lugar venha a ser ocupado por estrangeiros, ao invés de virar museu em homenagem ao grande artista. Bergman filmou ‘Vergonha’ na ilha, na seqüência fez seu documentário ‘Farö’ e, desde então, com raras exceções, fez dali o cenário de seus grandes filmes. Para encerrar o post. Fiz na mesa de jantar uma rápida enquete com os próprios suecos para saber qual era o Bergman preferido deles. Deu ‘Persona’ disparado, embora tenham sido votados ‘Summer Interlude’ e ‘Fanny e Alexander’. Quando me perguntaram o meu, engraçado, nem pensei. Saiu logo que era ‘Gritos e Sussurros’. Falei impulsivamente. Logo em seguida me corrigi e disse que era ‘Morangos Silvestres’. Acharam que qualquer das duas escolhas seria boa. E ficaram – fica todo mundo – surpresos quando digo que Montevidéo e São Paulo, quase simultaneamente, foram os primeiros lugares que, no mundo, reconhheceram a genialidade de Bergman. Chega. Já é madrugada e eu preciso levantar cedo. Rumo a Farö. Ah, sim. Não fica completamente noite aqui em Estocolmo. Há uma luminosidade de princípio de noite e uma lua imensa, que dá vontade de tocar.