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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2008 | 17h52

Voltei ontem do Rio e ao chegar em São Paulo estava tão mal – tonto, com dor e até vomitando – que corri para a emergência do 9 de Julho. Resultado – os médicos me deram baixa e passei a noite no hospital. Havia combinado com o Ubiratan Brasil, que está editando o Caderno 2, que ia redigir um texto com uma entrevista que fiz com o Cristian Mungiu, diretor de ‘4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias’, em Cannes, no ano passado. Redigi, mas confesso que não estava bem, não conseguia me focar e terminei fazendo um texto bem inferior ao que Mungiu e seu filme merecem. Por exemplo, ele diz uma coisa que me parece muito legal e que na hora não consegui explorar. Para Mungiu, seu filme não é sobre aborto e comunismo, ou pelo menos não é só sobre isto. Ele espera ter ido muito além, falando sobre a fragilidade humana, independentemente de regime. O aborto era livre na Romênia até 1966, mas o ditador comunista Ceaucescu baixou uma lei anti-aborto porque queria transformar o país num modelo para o bloco comunista. Segundo Mungiu, não apenas na Romênia, mas nos países muçulmanos e no Brasil – ele citou especifiocamente nosso país -, toda tentativa de coibir o aborto termina produzindo uma indústria da morte. Grande Mungiu. Em apenas três anos, a Romênia iniciou uma extraordinária escalada ascendente no maior festival de cinema do mundo. Começou com o prêmio da crítica para ‘A Morte do Senhor Lazarescu’, de Cristu Puiu, em 2005, prosseguiu com a Caméra d’Or para ‘A Leste de Bucareste’, de Columbiu Parombuiu, em 2006, e culminou com a Palma de Ouro para ‘4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias’ no ano passado. Mungiu diz que a indústria de cinema é fraca em seu país porque na Romênia não existe star system. Mas ele acha que a visibilidade que a produção nacional alcança em mostras como Cannes amplia a possibilidade de distribução internacional dos filmes romenos. E vocês sabiam que estes três filmes foram fotografados pelo mesmo cara – Oleg Mutu -, uma descoberta de Mungiu?