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Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2007 | 17h58

Vou fazer um programa duplo daqui a pouco, assistindo a ‘Bee-Movie’, a versão dublada, e ‘Santos e Demônios’, no qual ponho fé, depois de ver o trailer. Antes quero falar uma coisa. Para dizer a verdade, não chequei se saiu, mas escrevi um texto sobre filmes que tratam de roubos de obras de arte para acompanhar a cobertura do ‘Estado’ deste caso do Masp, em que foram roubados um Picasso e um Portinari. Confesso que esse tipo de coisa me perturba muito. Acho graça quando, num filme como ‘Um Novato na Máfia’, de Andrew Bergman, a garota diz a Matthew Broderick que o Da Vinci (‘O Sorriso da Mona Lisa) na sala do mafioso Marlon Brando é o original – a versão falsificada está no Louvre. Mas fora daquele universo paródico do cinema, ou de certos filmes, acho uma coisa muito louca. A polícia suspeita que o roubo do Masp tenha sido roubo encomendado. Qual é? Que mente doentia vai querer impedir que outros olhos que não os seus desfrutem dos quadros de Picasso e Portinari? Que prazer mais solitário, já que dificilmente, se foi encomenda, o quadro poderá ser vendido ou mostrado a amigos? Escrevi rapidinho o texto para o ‘Estado’. Os filmes me vinham – ‘Crown, o Magnífico’, de Norman Jewison, e seu remake, ‘A Arte do Crime’, de John McTiernan; ‘Como Roubar Um Milhão de Dólares’, de William Wyler; ‘Como Roubar a Mona Lisa’, de Michel Deville; ‘Topkapi’, de Jules Dassin. Confesso que nunca mais revi ‘Como Roubar Um Milhão de Dólares’, no qual Audrey Hepburn contrata Peter O’Toole para roubar do Louvre uma obra que, se for examinada, provará que seu pai é um falsificador. Há exatamente 41 anos, acho que Wyler não fez aquele filme de graça, mas para reforçar certos pontos que já abordara, um ano antes – 1965 – em ‘O Colecionador’, com Terence Stamp e Samantha Eggar. Aquele é o filme definitivo sobre a doença do colecionador. Terence Stamp começa colecionando borboletas e termina seqüestrando (colecionando) Samantha. Na verdade, o que ele faz é destruir a beleza (e a vida). Fazia tempo que não pensava naquele filme que nunca mais revi. De repente, ele me veio. E me perturbou. Nos anos 60, já havia sido assim. Wyler, é uma história famosa, fazia tanta questão de ser clássico que criou cartões nos quais imprimiu ‘ancient vague’, para ficar bem claro que se colocava nos antípodas da nouvelle vague, que dava as cartas para a crítica, no começo dos anos 60. Em Porto Alegre, houve quase morte por causa de ‘O Colecionador’, uma polêmica que opôs dois luminares da época, Jefferson Barros e Hélio Nascimento. Isso agora é passado, mas faz parte da minha memória e eu confesso que fiquei curioso. Vou conferir se Hélio Nascimento colocou seu texto sobre aquele Wyler no livro com que foi homenageado pela Prefeitura de Porto Alegre, ‘O Reino da Imagem’. Pode ser que sim, e será uma interessante investigação da mente de colecionadores como o do Masp.