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Ronald Neame e, antes dele, Susannah (York)

Luiz Carlos Merten

21 Junho 2010 | 15h31

Há tempos me perguntava o que teria ocorrido com Susannah York. Não me lembro qual foi o último filme que vi dela, mas volta e meia a imagem de Susannah me assombrava. Estava começando a redigir o post sobre Ronald Neame que o Mário Kawai me cobrou quando me dei conta justamente de que ‘Glória sem Mácula’, de 1960, foi o primeiro filme de Susannah. Na sequência, ela fez ‘As Aventuras de Tom Jones’ e, já por volta de 1970 ( e além), ‘Triângulo Feminino’, de Robert Aldrich; ‘Imagens’, de Robert Altman – pelo qual foi premiada em Cannes –; ‘X, Y e Z’, de Brian G. Hutton, de novo como terceiro vértice de um triângulo de conotações homossexuais; ‘Superman’ 1 e 2 etc. Eu adorava Susannah. Pelo visto – suas imagens na rede – está envelhecendo bem, e dedicada à TV. De volta a Ronald Neame, ele estaria completando seu centenário no ano que vem. Injustiça ter morrido aos 99 anos. Tão pouquinho para fechar 100! Neame foi assistente de fotógrafo para Alfred Hitchcock (em ‘Chantagem’, de 1929) e depois produtor de David Lean (basicamente na fase Charles Dickens, com ‘Grandes Esperanças’ e ‘Oliver Twist’). Tenho uma lembrança vaga mas simpática de seus primeiros filmes. Lembro-me que achei ‘Loucuras de Um Milionário’, com Gregory Peck, engraçado e, depois, quando vi ‘O Homem Que Comprou o Mundo’, o longa de ficção que o próprio Eduardo Coutinho deve querer esquecer que fez, achei o filme brasileiro de segunda mão. Na verdade, Neame, conscientemente, e Coutinho, não sei, se beneficiaram do precedente da história de Mark Twain sobre o homem que ganha um milhão, com todas as complicações daí decorrentes. Ainda outro dia passou na TV ‘O Homem Que Nunca Existiu’, aventura de guerra (com Clifton Webb) em que os aliados criam um espião fictício para distrair os alemães da próxima invasão da Sicília. O filme é bem bom, como ‘Um Maluco Genial’, com Alec Guinness no papel de um pintor tão bêbado quanto excêntrico (e irritante). O mesmo não se pode dizer de ‘Fugitivos de Zahrain’, com Yul Brynner, sobre a fuga de prisioneiros de um campo no Oriente Médio. Eles fogem pelo deserto e o cenário é o grande diferencial deste filme em relação a outros que surgiram depois (‘Fugindo do Inferno’, principalmente). Nunca tive muita paciência com Judy Garland, reconheço, mas nunca a vi tão visceral – como atriz e cantora – como em ‘Na Glória, a Amargura’, talvez porque a artista bêbada e drogada que voltava para a Inglaterra para tentar reaver a guarda do filho, entregue ao pai (Dirk Bogarde), fosse inspirada nela mesma – foi seu último filme. Mais até do que para Judy, me faltam elogios para Maggie Smith em ‘A Primavera de Uma Solteirona’. Ela ganhou o Oscar, totalmente merecido, por seu papel como Miss Jean Brodie, a professora que tenta incutir nas alunas sua admiração pelo nazi-fascismo e tem de arcar, na consciência, com o cadáver de uma que vai lutar na Espanha. O roteiro de Jay Presson Allen – ela também escreveu ‘Marnie’ – foi adaptado de um romance de Muriel Spark. Deixo para o fim meus ‘Neames’, no plural, preferidos. ‘Glória sem Mácula’ mostra oficial bonachão que é substituído por outro durão numa guarnição da Escócia, e em tempo de paz. Alec Guinness e John Mills interpretam os papeis e representam como se cada um tivesse consciência de que estaria fazendo melhor o outro. É muito interessante e a trilha de Malcolm Arnold, à base de marchas, ritma o relato num tom marcial que contradiz o espírito crítico/contestador da hierarquia militar. Finalmente, ‘O Destino do Poseidon’. O melhor de todos os disaster movies (não confunda com a versão medíocre de Wolfgang Petersen) mostra transatlântico que vira – emborca – por causa de onda gigantesca. Os raros sobreviventes, liderados pelo padre Gene Hackman, sobem pelo interior da embarcação, no que não deixa de ser uma representação simbólica da assunção, no sentido religioso. Quando chegam ao casco, é de aço. O próprio padre blasfema e o socorro vem pela mão do homem. Não me lembro, pelo menos na produção hollywoodiana da época, 1972 – nem depois –, de outra manifestação tão forte de ateísmo. Ronald Neame talvez fosse melhor do que nos ofereceu ao longo de sua carreira. Jean Tulard não está errado ao dizer que seus filmes, a maioria, revelam uma negligência talvez proposital, mas nem por isso, considera Tulard, menos decepcionante (ainda mais para um cara que foi fotógrafo).