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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2007 | 15h16

Conta a lenda que Romy Schneider recebeu um dia, lá por 1971/72, um telefonema de Luchino Visconti. O grande diretor disse que a queria em seu próximo filme. Tinha um papel especial para ela, um papel que, segundo ele, só Romy, e ninguém mais, teria propriedade para fazer. “Mais uma puta?”, teria perguntado a atriz. Não, era a imperatriz Elisabeth, da Áustria, que Romy, ela própria austríaca, havia imortalizado na série Sissi, quando ainda era muito jovem, nos anos 50. Sissi era uma série água-com-açúcar que a antiga Condor distribuiu no Brasil. Assisti aos três filmes dirigidos por Ernst Marischka no antigo Vitória, em Porto Alegre. A sala lotava e a Condor faturava, não apenas com os filmes de Sissi, mas também com os de Marisol, Pablito Calvo e o terrível Joselito. Ave Maria! Este saiu do baú. Era um horror, o guri, mas cantava feito um rouxinol. Romy sobreviveu ao estigma de Sissi para virar uma grande atriz e uma grande estrela. Seus melhores papéis foram na França, em filmes de Claude Sautet, para quem encarnava um ideal de feminilidade. Mas a Itália, e Visconti, também foram muito importantes. Em 1960, Romy namorava Alain Delon, o protegido de Visconti – o Rocco! –, e o grande diretor encenou em Paris, no teatro, Pena Que Ela Seja Uma P…, do dramaturgo elizabethano John Ford. Visconti deu respeitabilidade a Romy. Mostrou que a garota possuía um grande talento, primeiro no teatro e, logo, no cinema, no episódio O Trabalho, de Boccaccio 70. No começo dos 70, chamou-a para Ludwig, a Paixão de Um Rei (a produção foi concluída em 1973, após o derrame sofrido pelo cineasta). Por que estou falando de Romy Schneider? A pergunta não é esta – por que não falar de Romy Schneider? Mas há um motivo, sim. No aeroporto de Paris, comprei a revista Studio, que traz Romy na capa de sua edição de abril. Completam-se, dia 28 de maio, 25 anos da morte de Romy, uma morte trágica, até hoje envolta em mistério, porque pode ter sido suicídio, embora o laudo oficial tenha sido parada cardíaca. Seu coração não agüentou. Romy mergulhou na depressão sem fim após a morte do filho num acidente – ela instalou grades de ferro para isolar a casa, o garoto tentou pular o muro e perfurou a barriga – e isso veio no bojo de uma série de infortúnios. Seu ex-marido se enforcou e ela precisou retirar um rim. Êta, desgraceira! A morte só fez aumentar o mito, anunciada pelo filme que ela fez com Costa-Gavras, Clair de Femme (que no Brasil se chamou, título horrível, Um Homem, Uma Mulher, Uma Noite). Já se passaram 25 anos! Em maio, Studio vai dar sua capa ao Festival de Cannes, como é natural. Daí a antecipação, em abril. Studio ouviu diretores e, principalmente, atrizes da nova geração, que tentam dissecar o legado de Romy Schneider. Qual foi a herança dessa mulher? O que ela ainda ensina com suas interpretações cálidas e, não raro, viscerais? Na minha cabeça, pelo menos, Romy foi, na Europa, o que Leila Diniz representou no cinema brasileiro. Ambas morreram jovens. Foram libertárias. Romy distanciou-se de Sissi interpretando mais p… do que qualquer atriz de sua geração. Teve uma vida trágica desproporcional ao carinho que provocava nos fãs. 25 ans déjà!

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