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Cultura » Romper o isolamento

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Luiz Carlos Merten

02 Setembro 2011 | 12h55

Quando cheguei a São Paulo, no fim de 1988, um amigo me disse – ‘Esta cidade é desumana e não se entrega facilmente. Não é fácil se adaptar. Fica aí uma semana. Se achares – ele era gaúcho, como eu – que não estás te adaptando, vai embora.” Fiquei, me adaptei e hoje curto o que, para muita gente, devem ser os defeitos da metrópole. Mas por que estou falando isso? Nunca havia pisado em São Paulo, antes de vir aqui para trabalhar (e morar). Conhecia o Rio, Minas e, claro, Santa Catarina e Paraná. São Paulo era uma incógnita. As cidades da minha formação, além de Porto Alegre, haviam sido Montevidéu e Buenos Aires. As cinematecas de ambas foram meus templos. Tenho, até hoje, um carinho especial por Buenos Aires. A cidade é protagonista, com os personagens de Javier Drolas e Pilar López de Ayala, de ‘Medianeras’, de Gustavo Taretto. É um dos dois filmes argentinos que estreiam hoje. O outro é ‘Um Conto Chinês’, de Sebastián Tarenztein, com Ricardo Darín. Sebastián quem? Taretto, eu conhecia, pois foi homenageado com um programa de seus curtas no festival da Zita Carvalhosa (o Internacional de Curtas de SP). Fiz uma entrevista muito legal com Taretto, que ainda não consegui publicar no ‘Caderno 2’. Conversamos sobre suas influências, Woody Allen e Eric Rohmer, sobre relacionamentos na era da internet, sobre a arquitetura de Buenos Aires. A dupla de ‘Medianeras’ se cruza nas ruas da metrópole sem se ver. Cada um vive no seu canto. Encontros e desencontros. Como vencer o isolamento? Apesar de todas as diferenças, o tema é rigorosamente o mesmo – com o acréscimo de algumas cositas más – em ‘Um Conto Chinês’. Darín não baixa a guarda da autoproteção contra a mulher que o ama. Surge esse chinês em sua vida. Darín coleciona recortes de jornais sobre fatos insólitos que provam, para ele, o absurdo da existência. O que ocorreu com Jun é prova disso, mas o jovem chinês não acredita no absurdo. Para ele, tudo, até o fato que desgraçou sua vida, tem um sentido. Conseguirá Jun influenciar Darín para que ele também rompa seu isolamento? Assisti a ‘Medianeras’ com diferentes plateias, em Berlim e Gramado. Ambas foram calorosas, entram no espírito do filme. Assisti a ‘Um Conto Chinês’ sozinho, numa cabine arranjada às pressas na Paris. Ninguém para compartilhar as emoções da sessão. Gostei demais de ambos. Não quero escolher agora. Sugiro que vejam, e curtam. O ator Javier Drolas, que foi a Gramado, me havia contado – e a Orlando Margarido – que o diretor o manteve afastado da atriz Pilar López de Ayala, a Angélica de Manoel de Oliveira. Como os personagens não se encontram durante todo o filme, Taretto queria reproduzir a vida na tela, mantendo-os distantes até que… Vejam ‘Medianeras’, vejam ‘Um Conto Chinês’. Cada um à sua maneira, são exemplos da qualidade que identificamos – e amamos, tenho certeza – no cinema argentino.

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