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Luiz Carlos Merten

27 Maio 2007 | 11h05

CANNES – Novo queridinho de Cannes, o cinema romenos tem feito bla presença na Croisette, nos últimos anos. Em 2005, A Morte do Sr. Lazarescu foi um dos melhores filmes do evento. No ano passado, A Leste de Bucareste ganhou a Caméra d’Or e, neste ano, Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, de Christian Mungiu, é um dos favoritos para a Palma de Ouro, que será entregue dentro de algumas horas pelo júri presidido por Stephen Frears. O filme de Mungiu já ganhou ontem o prêmio da crítica. É ótimo e comprova esse novo status do cinema romeno, que teve, ontem, mais uma vitória. O júri presidido por Pascale Ferran, diretora de Lady Chatterley – adaptação do romance de D.H. Lawrence que a Imovision vai lançar no Brasil -, premiou California Dreamin’ (Endless) como melhor filme de Un Certain Regard. Antes da premiação, Madame la Présidente sentiu-se na obrigação de prestar um esclarecimento. O júri, inicialmente, havia pensado em desclassificar o filme do jovem diretor romeno Christian Nemescu porque ele morreu, no ano passado, num acidente de carro, quando trabalhava na montagem da obra agora premiada. Nemescu, vejam que tragédia, tinha apenas 26 anos. California é (ou seria) seu primeiro filme. A equipe concluiu a montagem. Nunca saberemos como seria o filme de Nemescu. Sabemos como é o filme que concorreu em Cannes – irregular, com uma montagem esquisita e um monte de interrogações que ficam no ar. Mesmo assim, o júri, disse Madame Ferran, achou que o filme era o mais poderoso, exigente, original e criativo de Un Certain Regard e resolveu premiá-lo à l’unanimité. Achei meio demagógico e, mesmo gostando desse novo cinema romeno, excessivo. Mas, enfim, vamos ver o que vocês vão pensar quando virem California Dreamin’ no Festival do Rio ou na Mostra do São Paulo. O personagem é esse pequeno funcionário de uma estação de trens no meio da Romênia que desafia o gigante americano. Ele simplesmente não dá passagem a um trem da OTAN que carrega equipamento militar, durante a guerra de Kosovo, em 1999. O trem abriga um pelotão americano, cujo capitão entra em choque com o homem do trem. Parece a luta de Davi e Golias, mas na segunda metade o funcionário é pintado como um fascista que se vale de sua ligação com a polícia para oprimir a população. O prefeito pede ao capitão que seja o libertador da pátria. O quadro político é também familiar porque a filha do chefe de estação se envolve com o sargento do pelotão. Há uma certa ironia no desfecho, como em A Leste de Bucareste, mas não fiquei muito convencido, nem do ponto de vista da estética nem da política. Chega! Estou indo para o Palais. Vou torcer por Quatro Meses e por The Edge of Heaven, de Fatih Akin, na premiação desta noite. Mas se ganharem Alexandra, de Sokúrov, e Le Scaphandre et le Papillon, de (quem diria?) Julian Schnabel, vou ficar contente, também. Com a palavra, o júri.