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Luiz Carlos Merten

01 Dezembro 2006 | 11h24

Assim, não dá. Não brinco mais. Presença constante no mercado brasileiro nos anos 50 e 60, o cinema italiano participou da minha formação estética e política. Devo muito a Antonioni, Fellini, Risi, Rossellini, Rosi e, acima de todos, a Visconti. A morte dos grandes e o afastamento dos que ainda sobrevivem reduziram muito a entrada dos filmes italianos no Brasil, embora o maior problema seja mesmo a hegemonia americana e a conseqüente formatação do mercado para abrigar, massiva e maciçamente, a produção de Hollywood. Por conta disso, duas iniciativas importantes, como as da Embaixada da Itália e da Bienal de Veneza e a da Câmara Ítalo-Brasileira de Indústria e Comércio, deveriam merecer todo apoio. Só ainda não entendi qual é o objetivo de fazerem dois eventos como o Veneza Cinema Italiano 2 e o Cinema Contemporâneo Italiano nas mesmas datas. Quer dizer, até entendo o conceito, mas não a eficiência. O evento da embaixada traz o cinema italiano autoral que concorreu no recente Festival de Veneza. O da Câmara é uma iniciativa mais comercial (sem deixar de possuir valor artístico por isso). Ambos seriam (coloco no passado imperfeito) complementares, mas na verdade estão disputando espaço na mídia e se anulando, sem o destaque que poderiam ter. Por mais que a ação seja de sistema, acho que a desvinculação de datas seria salutar para todo o mundo, incluindo o público, submetido a uma dieta de cinema italiano e que não precisaria estar fazendo, a cada dia, a escolha de Sofia. Acho que o Veneza Cinema Italiano, no Centro Cultural São Paulo, até por ser de graça, deveria ter virado a sensação dos cinéfilos paulistanos nesta semana, mas não é o que estou sentindo. Quanto ao outro evento, hoje mesmo, no Cinemark Iguatemi, passa, às 19h30 e 21h30, um filme que acho que as pessoas tinham de ver (mesmo pagando ingresso). Romanzo Criminale percorre a vertente do policial político, à Damiano Damiani. O filme representou a Itália no Festival de Berlim, em fevereiro. A crítica fez as mesmas acusações que fazia a Damiani (reformismo social e político, pouco rigor estético, dada a filiação ao gênero policial de grande espetáculo), mas Romanzo Criminale ganhou um monte de prêmios Nastro d’Argento e David Di Donatello. Será que o público não tem nem curiosidade de conferir? Aproveito para relatar uma coisa que nunca tinha visto. Nos grandes festivais, com seu público de jornalistas, o diretor é sempre a atração (a menos que o filme tenha grandes nomes do cinemão; aí, a tietagem corre solta…). Pois bem, Michele Placido, que dirige Romanzo, foi mero coadjuvante no debate sobre o seu filme. A ‘estrela’, por assim dizer, foi o jornalista e magistrado Giancarlo Di Cataldo, autor do livro em que o diretor se baseou e que relata uma história real dos anos 70, o combate da polícia (e da magistratura) a uma organização criminosa formada por mafiosos e políticos.