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Luiz Carlos Merten

18 Março 2007 | 20h13

Ontem, logo após postar o texto sobre Tora! Tora! Tora!, dei uma zapeada na TV paga e peguei os 15 ou 20 minutos finais de Gladiador, do Ridley Scott. Outro dia comentei aqui o final de Thelma & Louise, que também havia pegado por acaso. Já sei que Ridley Scott é um dos meus pontos de atrito com vocês. A maioria não gosta dos filmes dele e eu, para dizer a verdade, não sou muito atraído pelos que tendem a ser unanimidades (o primeiro Alien e Blade Runner). Gosto dos que são mais polêmicos. Gosto de Gladiador, mesmo com aquele final meio brega da vida após a morte, quando Russell Crowe, enfim, encontra a mulher e o filho que foram mortos a mando de Commodus, na tentativa de consolidar seu caminho para o poder imperial. Ridley Scott sofreu uma recente acusação de plágio e foi parar no tribunal, por causa de Cruzada. Não me lembro mais que schoolar dizia que ele havia se apropriado de suas pesquisas sobre o assunto, mas eu acho que Ridley Scott, se teve uma fonte de inspiração, foi o livro Cruzada, de H. Rider Haggard, o autor de As Minas do Rei Salomão, que foi editado no Brasil (e já caiu em domínio público). Acharia muito mais pertinente que fosse processado por Gladiador, que me parece quase um remake de A Queda do Império Romano, que Anthony Mann dirigiu, na Espanha, para o superprodutor Samuel Bronston, nos anos 60. Mann, ex-marido de Sara Montiel, havia feito um éopico deslumbrante – El Cid, com Charlton Heston e Sophia Loren, cuja última cena, a investida do Cid morto contra os sarracenos, com a música de órgão de Miklos Rosza ao fundo, é, para mim, um momento de antologia do cinema. El Cid contava a tragédia de um grande homem, um daqueles personagens maiores que a vida. A Queda começa com a morte do grande homem, que não terá sucessores à altura. Este também é o tema de Joseph L. Mankiewicz em Cleópatra, mas não vamos misturar as coisas. O imperador Marco Aurélio morre, esperando ver o Império entregue ao mais valoroso dos seus generais, mas uma trama palaciana coloca no poder seu filho ilegítimo, Commodus. Isso ocorre na Queda como em Gladiador. Ao contrário do Cid, que foi um grande sucesso de público e crítica, A Queda do Império Romano foi um fracasso, na época. Num certo sentido, é o antiépico. Um filme falado, com mais discussão, inclusive filosófica, do que ação. Tenho uma fantasia que acho que já relatei aqui (acho). Não creio que Glauber Rocha fosse homerm de ficar vendo superespetáculos de Hollywood, mas A Queda do Império Romano ele deve ter visto. Terra em Transe sai, para mim, do desfecho de A Queda, quando Stephen Boyd matou Christopher Plummer na arena e Sophia Loren, como Lucila, sai como louca, pelas ruas de Roma, conclamando os romanos a defender o Senado, enquanto o império está sendo leiloado entre os generais (e políticos) corruptos. Roma em transe. Talvez Glauber não tenha visto o filme de Mann, mas é matéria de reflexão o fato de que artistas de diferentes tendências e contextos às vezes entram em sintonia. Anthony Mann antecipou, ali, o método de filmagem, baseado na descontinuidade, que Glauber consolidou em Terra em Transe. Revi A Queda, no ano passado, na TV paga, e fiquei pasmo pela maneira como Mann subverte, desde o interior, todos os códigos do gênero espetacular em Hollywood. Gladiador tem muita coisa em comum com A Queda, menos o final delirante. No filme de Ridley Scott, Lucila entrega o poder ao mais nobre dos senadores, para que ele reconstrúa o sonho de Roma. Mann, em 1963/64, teve o insight de que o mundo ia mudar, já estava mudando, e filmou o colapso do Império – Kennedy fora assassinado, os falcões dominavam a política externa americana e o país começava a se atolar no Vietnã. Não era o que o público queria ver, mas acho um filme muito interessante. Gladiador é, comparativamente, menos complexo, mas acho que as cenas de arena de Ridley Scott, no fundo, falam menos de combates ocorridos há 2 mil anos e mais do pão e circo que o cinemão oferece hoje. É tudo uma questão de olhar. E de ver.

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