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Luiz Carlos Merten

08 Abril 2007 | 11h36

Não gostei muito do último Rohmer a que assisti, em Berlim, no ano passado. Não entendi por que Rohmer, um autor de pequenos filmes elegantes, nos quais o que importa não é a história mas tudo o que fica nas entrelinhas, resolveu fazer um filme de espionagem, Triple Agent, com trama, ação, um filme narrativo, para ser visto como um romance (quando a essência da arte do diretor é a crônica ou, mais exatamente, o conto). Triple Agent não me impressionou e eu confesso que não tive o menor interesse de conferir porque Cahiers du Cinéma, fiel a Rohmer, que já foi seu editor-chefe, dedicou uma edição quase que inteira ao filme em questão. Vou esquecer esse último Rohmer e ir direto aos de que gosto – Os Contos Morais, as Comédias e Provérbios, os Contos das Quatro Estações. Nada mais diferente do cinema de Rohmer que o de Kieslowski, mas ambos adoravam as séries. Kieslowski fez O Decálogo, a Trilogia da Cores e, ao morrer, planejava sua trilogia Céu, Inferno e Purgatório, que está sendo feita por outros diretores, a partir dos roteiros que ele deixou (e nos quais ainda trabalhava). Rohmer sempre gostou de se definir a si mesmo como um moralista do século 18 transportado para a Paris atual. Seus contos tratam, basicamente, de relações amorosas, de encontros e desencontros, de personagens ‘lost in translation’, muito antes que Sofia Coppola se apropriasse da expressão. Boy meets girl, mas este encontro é sempre complicado, porque a relação do casal coloca a questão da fidelidade e Rohmer foi sempre atraído pela transgressão amorosa. A grama do vizinho é mais verde, sempre, mas existem imperativos morais que travam o desejo no seu cinema. Em Ma Nuit Chez Maud, Minha Noite com Ela, Jean-Louis Trintignant passa a noite com sublime Françoise Fabian, viúva de Jacques Becker, arranjando 1001 razões para não ter sexo com a mulher que está a fim dele e mais tarde descobrimos que sua noiva, na mesma hora, estava na cama com outro. Há sempre uma sutil ironia, uma vontade de refletir sobre o que se ganha e o que se perde com a virtude. E é um cinema falado, construído mais por meio do diálogo do que da ação. As Comédias e Provérbios não são menos ‘morais’. Ilustram ditos populares como ‘quem tem duas casas (dois amores) perde a razão’. E chegamos aos Contos das Quatro Estações. No de Primavera, Jeanne (Anne Teyssèdre) é uma professora de filosofia cujo noivo está viajando. Para não ficar sozinha, ela vai morar com uma garota que conheceu numa festa. Envolve-se com o pai da amiga e a namorada dele, acusada de roubar um colar. No de Verão, Gaspard (Melvil Poupaud) vai para a praia, onde espera encontrar a garota por quem acha que está apaixonado, mas não tem muita certeza. No de Outono, amiga ajuda viúva a encontrar um namorado, mas não é fácil, no mundo atual, chegar ao homem certo, um homem decente. No de Inverno, Charlotte Véry, como uma mulher presa a um fantasma do passado, não se fixa em nenhuma relação e se arrisca a ficar só. Não creio que o cinema de Rohmer, tão delicado como é, seja do agrado da turma que não concebe cinema sem pipoca e refrigerante. Não estou sendo preconceituoso. Adoro muitos filmes teens e, mesmo que não compre pipoca, estou sempre bicando o pacote do vizinho, quando vou em grupo. Mas é que Rohmer tem essa vontade (e quase sempre consegue) de transcender a banalidade. A vida de seus personagens não difere muito da dos espectadores. Só que, enquanto a maioria do público prefere viver emoções fortes, esbaldando o Id no escurinho do cinema, Rohmer acredita na palavra como fonte de (auto)reflexão. Talvez, num certo sentido, se possa (ou pudesse) comparar seu cinema a certos filmes de Woody Allen. Mas Allen, mesmo quando é trágico, não deixa de ser cômico. Rohmer pratica o humor, seus filmes são comédias dramáticas mas seria impossível, ou despropositado, rotulá-lo como um autor ‘cômico’.