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Rohmer sobre duas rodas

Luiz Carlos Merten

07 Março 2007 | 16h46

Não sei o que me deu, mas hoje fiquei meio down. Me bateu um desânimo, coisa que não é muito freqüente, e eu demorei o dobro para fazer minhas atividades do dia no jornal, o que explica porque, até agora, não tive tempo de postar nada. Vou dar uma geralzona, enquanto tento me animar, mas começo com uma errata de um dos textos que saíram publicados hoje no Caderno 2 – aquele em que falo de O Rastro da Bruxa Vermelha, do meu querido Edward Ludwig, com Johhn Wayne. Coloquei que o filme está sendo lançado pela Magicline. De onde tirei isso? É Classicline.
Fui ontem ao Reserva Cultural para a pré-estréia do novo filme do Ricardo Elias, Os 12 Trabalhos, que estréia sexta. Acho muito bonito, uma história de motoboys ou a história de um motoboy que permite ao diretor fazer uma crônica muito interessante de São Paulo. O projeto surgiu quase como uma conseqüência do filme anterior do Ricardo, De Passagem, do qual tam,bém gosto muito. Ele queria fazer um filme sobre um cara de perferia atrás de trabalho. A partir daí, surgiu a anologia com os 12 trabalhos do mitológico Hércules, que os executou para entrar no Olimpo. No filme, Heracles (o nome grego de Hércules) também quer entrar para a Olimpo – reparem no artigo feminino; é uma agência de motoboys. Para dramatizar, Ricardo Elias imaginou que ele estaria saindo da Febem e deveria passar por uma prova, antes de conseguir o posto. O filme é cheio de citações e referências, que eu não vou antecipar para não tirar a graça, mas só quero dizer uma coisa.
Ou duas. É o filme mais maduro do Ricardo, que brinca de forma muito lúdica e inteligente com a linguagem. Ricardo é atraído por esses personagens que estão sempre ali, no limite de ingressar na criminalidade. Ele podia contar suas histórias com muita violência, mas não. O cinema de RE é o reverso da espetacularidade. Durante todo o tempo o espectador fica à espera de algo que não acontece. Essa reversão de expectativa pode ser frustrante, mas é, no fundo, uma fidelidade de Ricardo ao seu autor favorito – o francês Eric Rohmer. Imaginem Os Contos Morais e Os Contos das Quatro Estações com motoboys. Você estará mais próximo de os 12 Trabalhos do que se, de repente, Rambo adentrasse no universo de pequenas sutilezas de Rohmer. Temo exagerar, mas Ricardo de alguma forma segue a máxima das máximas romehrianas – o cinema não diz, o cinema mostra. O que ele mostra sobre seus motoboys, sem discursos nem grandes impactos, diz muito sobre eles – e nós.