Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Rodrigo Grota

Cultura

Luiz Carlos Merten

20 Agosto 2008 | 20h29

Quem foi mesmo que me pediu que postasse alguma coisa sobre o novo curta de Rodrigo Grota? Rodrigo, paranaense de Londrina, havia feito ‘Satori Uso’, que me encanta, mas não é o tipo de curta – falado em inglês, mais ligado à experimentação de linguagem do que ao social – adorado por quem toma ao pé da letra a informação de que 68 é o ano que nunca termina. ‘Booker Pittman’ é o segundo curta de experimentação do Rodrigo, que toma como referência o músico norte-americano que viveu no Brasil, nos anos 50 e 60. Ao contrário de Satori Uso, Booker existiu, de fato, mas Rodrigo não se preocupa em construir uma cinebiografia ‘informativa’. É muito provável que o espectador, no fim do filme dele, continue sem saber muita coisa sobre o pai de Eliana Pittman – que esteve em Gramado para a exibição -, mas eu adorei o filme, que, de certa forma, faz uma coisa que muitos intelectuais vivem pedindo (ou, pelo menos, pensando nela). Augusto Campos dizia que a crítica a uma poesia só poderia ser feita por meio de outra poesia e Jean-Luc Godard também já disse que a crítica de cinema poderia ser feita por meio de outro filme. Tem gente (José Carlos Avellar) que acha que as estruturas de uma crítica e de um filme não são tão diferentes assim, e isso até motivou ásperas disputas (com direito a réplica e tréplica) no encontro da crítica em Gramado, mas esta é outra história. Rodrigo usa fragmentos sonoros – de música – para refletir sobre Booker Pittman, muito mais do que para contar a história do artista. Meu amigo Carlos Eduardo Lourenço Jorge, também de Londrina – ele é crítico e moderador dos debates de Gramado -, me disse que o Rodrigo tem o projeto de fazer um longa sobre Booker, mas o próprio Rodrigo me disse que está empenhado agora em terminar sua trilogia de curtas que investigam o imaginário da criação (de artistas reais ou fictícios). É curioso que, com ‘Booker Pittman’, ele radicalize a investigação de ‘Satori Uso’ e isso você poderá comprovar no Festival de Curtas que começa amanhã (sexta-feira para o público). ‘Booker Pittman’ integra a Mostra Brasil, sobre a qual voltarei. E, ah, sim, tenho de falar sobre o curta de Júlio Bressane dedicado a Michelangelo Antonioni (e da ponte que fiz entre ele e o ‘Booker Pittman’). Amanhã. Agora, vou sair para jantar.