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Cultura » ‘Robin Hood’!

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Luiz Carlos Merten

12 Maio 2010 | 12h58

CANNES – Devo estar sendo o último com as primeiras, mas antes tarde do que nunca. Começou a maratona! Às 10 da manhã locais – cinco horas no Brasil – houve a sessão de imprensa de ‘Robin Hood’, seguida pela coletiva do filme que está abrindo (agora) o Festival de Cannes de 2010. Ridley Scott operou o joelho e não está se recuperando no ritmo que esperava. A coletiva touxe Russell Crowe, Cate Blanchett e o produtor Brian Grazner, parceiro habitual de Ron Howard, que há três anos também mostrou aqui, na abertura, ‘O Código da Vinci’. Cate estava linda – classuda, uma mulher madura. Crowe, com sua fama de mal-humorado, não poderia ter estado mais light, bebendo litros de água. Crowe tem a fama de detestar a imprensa e meter porrada em jornalistas invasivos. Quando lhe perguntaram contra o quê Robin Hood lutaria hoje, ele disse que muita gente de certo gostaria de ver o herói enfrentar os ladrões de Wall Street, mas para ele a luta teria de ser contra a imprensa manipuladora. Touché, Mr. Crowe! Adorei o filme, escrito por Brian Helegeland, com um pouco daquele coração de cavaleiro que colocou em seu épico medieval com Heath Ledger, lembram-se? O cinema contou muitas vezes a história de Robin Hood. Se ele não tivesse existido – e há controvérsia quanto a isso – teria de ser inventado por Hollywood. Aliás, Hollywood foi que consdolidou o mito, ao se apropriar dele, transformando-o numa fantasia universal,  garante o schoolar Thomas Hahn, que ‘The Hollywood Reporter’, na sua edição de hoje, apresenta como o maior especialista, no mundo, sobre o bandoleitro da Floresta de Sherwood. A diferença deste Robin Hood, para pegar carona no que disse Russell Crowe, é que cria um quadro histórico e uma motivação para o personagem. O quadro é o da Inglaterra pós Ricardo Coração de Leão, quando seu irmão, o Príncipe João, estabeleceu a tirania no país. Na concepção de Ridley Scott e Brian Helgeland, Robin Hood vai lutar pela primeira Constituição -, a Carta Magna – que vai mudar a história. E o filme soma à política o romance, mesmo que, na maior parte do tempo, Crowe e Cate só se comam com os olhos, deixando para a imaginação o que nunca é apresentado. O filme não termina. No desfecho, a lenda começa, ou seja, todos aqueles filmes que você já viu. Adorei! Mas me calo para não influenciar demais vocês. Afinal, o filme estreia depois de amanhã aí no Brasil, para que vocês vejam e, se for o caso, me contestem. Minha filha me diria (dirá?) que é mais um filme de guri. O curioso é que os dois principais lançamentos do verão americano são filmes de meninos que vão na contracorrente do efeito ‘Avatar’. ‘O Príncipe da Pérsia’, numa vertente mais fantasiosa, e ‘Robin Hood’, mais realista, tomam o rumo do passado. O público vai gostar? Espero que sim. Uma palavrinha sobre Max Von Sydow. Ele não participou da coletiva, mas deve estar subindo agora o tapete vermelho. Grande Max! Como o velho cavaleiro que ‘assume’ Robin como filho, ele tem uma bela participação. Até por ele, e por essa temática da ‘paternidade’, ‘Robin Hood’ me seduziu. As novas gerações é que são felizes. Podem ver o filme de Ridley Scott e emendar com as outras versões – com Douglas Fairbanks, Errol Flynn, Richard Todd ou Kevin Costner – quando a lenda se estabelece. O festival continua. Daqui a pouco teremos ‘Tournée’, de Mathieu Amalric, e amanhã, na abertura de ‘Un Certain Regard’, Manoel de Oliveira, com sua ‘Angélica’, às 11 da manhã daqui (6 horas no Brasil). Na sexta, ao contrário do que havia sido anunciado, não é ‘O Beijo da Mulher Aranha’, mas ‘O Leopardo’ que abre Cannes Classics. A obra-prima de Visconti passou por nova restauração patrocinada por Gucci. A marca espalhou cartazes pela Croisette. ‘O Leopardo’ abre o baile (de Cannes Classics) e a imagem é de Burt Lancaster, o príncipe Salinas, dançando aquela valsa com Angelica Sedara, aliás, Claudia Cardinale. Achei que seria loucura rever ‘O Leopardo’. Afinal, mais de três horas, em pleno horário de filmes concorrentes. Vou ter de acomodar meus horários. Não rever ‘O Leopardo’, em Cannes, é crime de lesa-majestade contra meu querido Luchino.