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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2011 | 09h43

Roberval me dá uma paulada com certa elegância e, pegando carona na minha declaração sobre o que me desagrada em ‘Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto’ –  a cena de sexo entre Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei -, observa que eu talvez tenha mesmo uma rejeição a ver gordos, feios ou deficientes em cenas amorosas no cinema. Pode não ser socialmente correto, mas, afinal, não estou pregando o extermínio de ninguém e o Roberval me absolve por isso, não sem antes acrescentar – cada um com suas neuroses. Fiquei com a observação, à qual não procuro necessariamente responder. Mas o bom do blog é justamente o fato de a interação com o leitor suscitar reflexões e eu vou fazer uma.  Considerando que me enquadro na categoria do ‘deficiente’, estaria me privando de uma vida afetiva e sexual – embora com a gente seja diferente, ou a gente tenta achar que sim -, mas penso que a minha rejeição não é com o gordo em geral, mas com o Philip Seymour Hoffman, em particular. Acho que ele é genial como Capote e também como o vilão de ‘Missão Impossível 3’, no jogo de máscaras criado por McG. É um filme nunca me canso de ver e o ataque com míssil na ponte é tudo aquilo que meu querido John McTiernan sonhou fazer na cena equivalente de ‘O Último Grande Herói’, com Arnold Schwarzenegger. Mas eu tenho de confessar que Hoffman me parece melhor naquele miserável e repulsivo (anti)herói que interpreta em ‘A Felicidade’, de Todd Solondz. Ele o compõe com tanta propriedade que não posso deixar de transferir para o ator um pouco do sentimento que seu personagem me provoca. Quando penso em Philip Seymour Hoffman, o que me vem é a cara meio aparvalhada e a obesidade mórbida que ele ostenta no filme de Solondz, talvez o mais coprrosivo retratista da sociedade dos EUA (e eu nem sempre gosto dele). Alguém observou aqui no blog, teria de ir aos comentários para saber quem foi, que acha a cena de sexo de ‘Antes Que o Diabo Saiba…’ gratuita. Não é bem uma questão de gratuidade, mas de como filmar. Sidney Lumet pode não ter querido caracterizar Philip Seymour Hoffman como um vilão em seu filme, mas ele também estaria indo contra a própria história – e o clímax dramático – se forçasse a barra para tornar simpático um personagem que afinal de contas, do ponto de vista ético, está longe de ser irrepreensível (corneia o irmão, assalta a joalheria dos pais e, mesmo que, de forma acidental, provoca a morte da mãe). Acho que o sentimento era mesmo ambíguo e sobre ele projetei meus preconceitos, ou minhas neuroses, como diz o Roberval, o que é bem possível. Mas, só para que vocês não façam uma ideia errada, quero acrescentar que, em 1970, substituindo Martin Scorsese – que seria o diretor original -, Leonard Kastle fez um filme intitulado ‘Os Assassinos da Lua de Mel’, sobre uma gordona, bem felliniana, que se liga a um tipo cadavérico para uma vida de assaltos. A adrenalina os impulsiona ao sexo selvagem e as cenas de cama com certeza contribuíram para a reputação de cult que o filme ostenta. As cenas de sexo de ‘Honeymoon Killers’ nunca me incomodaram, pelo contrário. Concordo plenamente com Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, quando ele diz que Kastle, compositor que assina aqui seu único filme, criou uma ópera trágica solidamente ancorada na observação da vida norte-americana. Quero acrescentar que a história de ‘Honeymoon Killers’ foi refeita por Arturo Ripstein como ‘Vermelho Sangue’ e eu gosto ainda mais do filme mexicano, com aquela dupla totalmente improvável, formada porDaniel Giménez Cacho e Regina Orozco. É curioso como, de vez em quando, penso nesses dois filmes. De certa forma, eles compõem versões desglamourizadas do clássico de Arthur Penn, ‘Bonnie & Clyde’, que no Brasil se chamou ‘Uma Rajada de Balas’. Para concluir, permitam-me contar uma piada de obeso. Para dizer a verdade, não se trata de piada, pois quem me contou, há décadas, em Porto, jurava que era verdade. O gordo foi ao bordel, acertou com a garota e se foram para o quarto. Mas ele era ‘muito’ gordo. Imobilizou a pobre da mulher, deitando-se sobre ela. O gordo pedia – ‘Mexe’. E ela – ‘Só se for com os olhos.’ Como no teatrinho do Vão Gogo, na antiga revista ‘Cruzeiro’, desce o pano, rápido.