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Luiz Carlos Merten

05 Junho 2007 | 10h26

Completaram-se no domingo 30 anos da morte de Roberto Rossellini. Deixei passar a data redonda porque… Tenho um sentimento ambivalente em relação a ele. Longe de mim querer negar a influência de RR, que foi fundamental para o cinema moderno. Rossellini foi um dos fundadores do neo-realismo e, depois, quando o movimento começou a se diversificar, desenvolveu, a partir de Viagem na Itália – que, nos anos 50, foi lançado no Brasil como Romance na Itália –, o método que os franceses definiam como ‘desdramatização do roteiro’. Truffaut era um devoto de Rossellini e acho que foi o primeiro a se perguntar como seria viver sem ele? O próprio Truffaut fez o mais rosselliniano de todos os filmes que Rossellini não realizou e eu confesso que amo O Garoto Selvagem. Se tivesse de escolher um, não trocaria a história de Victor d’Aveyron e sua relação com o professor Itard, interpretado pelo próprio Truffaut, por nenhum dos filmes de amor do diretor (nem Jules et Jim). Mas eu devo admitir, para ser honesto comigo mesmo, que sobrevivo muito bem sem Rossellini. Gosto de dois ou três de seus filmes – pela ordem: De Crápula a Herói, Francisco Arauto de Deus e Viagem na Itália –, mas tenho de admitir que Roma Cidade Aberta me parece uma peça de museu e Vanina Vanini é uma escandalosa mediocrização do meu querido Stendhal. Godard disse certa vez que Rossellini queria ser o filósofo do cinema, o Sócrates – que transformou em personagem de telefilme – da tela. Rossellini se desiludiu com o cinema e assumiu-se como um curioso. Armado de uma câmera, ele a usou para investigar todas as formas do conhecimento. O cinema lhe dera prestígio, mas as injunções comerciais o desgostavam. Rossellini trocou o cinema ficcional pelo educativo, que não interessava aos produtores. Bandeou-se para a TV. Sua fase televisiva, iniciada em 1964, com L’Età di Ferro, soma mais de dez títulos (acho que uns 15), muitos em episódios – e A Luta do Homem pela Sobrevivência tinha 12 episódios de uma hora! Gosto de dois, A Tomada do Poder por Luís XIV e A Era dos Médicis, no qual ele descreveu a ascensão da burguesia na Europa (e, de certa forma, foi o filme que transformou o filósofo de Godard num etnógrafo). Sérgio Augusto disse que, embora a vontade de Rosselini fosse ser o Sócrates do cinema, ele foi muito mais o Diderot – um enciclopedista. Detestava a câmera na mão, até porque, trabalhando na TV, achava que precisava de uma certa solenidade da imagem para que o telespectador se sentisse no cinema. O que me trouxe, finalmente, a este post sobre Rossellini foi o anterior, sobre os premiados e os esquecidos de Cannes. Escrevi que, em 1977, o júri premiou um grande filme italiano (Pai Patrão) e esqueceu outro (Um Dia Muito Particular). Rossellini presidia o júri. Quase foi queimado vivo. A crítica foi inclemente. Disse que ele premiara os irmãos Taviani porque eles também haviam sido produzido pela RAI, a Rádio e TV italiana, e Rossellini, portanto, estaria dando uma satisfação a seus patrões, os mesmos que pagavam a conta de seus telefilmes. Acho muita baixaria, mas a verdade é que Rossellini morreu em seguida, uma ou duas semanas depois. Fantasio um pouco, ao dizer que talvez tenha sido por desgosto. Muitos de seus filmes envelheceram (demais), mas foi um modelo de intelectual, íntegro e exigente. Em seu livro Um Espírito Livre não Pode Aprender Nada em Escravidão, denunciou não apenas o vazio do cinema dos anos 70, mas também os meios de comunicação de massa, em geral. Dizia que eles contribuíam, todos os dias, para nos alienar de tudo, para diminuir a nossa inteligência e o interesse em melhorar a vida. Rossellini, como Sócrates, teria se matado, se tivesse vivido mais estes 30 anos para ver o mundo globalizado.

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