Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Robert Mulligan (2)

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Robert Mulligan (2)

Luiz Carlos Merten

22 Dezembro 2008 | 12h36

PORTO ALEWGRE – Reli, recentemente, o romance de Harper Lee, a amiga de Truman Capote,. ‘To Kill a Mockinbird’. No Brasil, foio lançado como ‘O Sol É para Topdos’, como o filme. Harper Lee, ao contrário de Capote, foi autora de um só livro, mas que livro! E que filme! Não creio que se possa dizer que ‘O Sol É para Todos’ seja um filme perfeito – acho que só um filme de Robert Mulligan é, e se trata de ‘Houve Uma Vez Um Verão’ -, mas a experiência estética e humana que proporciona permanece com a gente (permanece até hoje comigo). Americano adora listas, a gente vive comentando isso. O American Film Institute fez uma pewsquisa com sei lá quamntos críticos, diretores e formadores de opinião, para saber quem era o maior herói do cinema de Hollywood. Que Stallone, que Schwarzenegger, que nada. O maior herói, o número um da lista, foi Atticus Finch, o advogado sulista que dá lições de civilidade e integridade para os filhos, defendendo negro acusado de crime numa cidadezinha racista do Deep South. Me emociono só de lembrar. O livro é tão bonito, tão detalhado. Embora seja contado pela ótica da menina – ela era interpretada por Mary Badham – e, portanto, não seja uma crônica exata, o retrato que ela vai fazendo do pai viúvo, da casa, dos parentes, dos vizinhos, tudo isso é muito envolvente. Já contei aqui que assimilei a cara de Casthereine Keener, que fazia o papel no filme com Philip Seymour Hoffman, como sendo a da autora, mas algum leitor, na época, entrou para comentar que não – que ela era tinmhosa de feia. Não importa. O heroísmo ético, mais do que físico, faz de Atticus um belíssimo personagem e Gregory Peck, que os críticos consideravam quando muito um ator ‘correto’, certamente mereceu sua estatueta. Foi o ano em que Anne Bancroft venceu como melhor atriz, por ‘O Milagre de Anne Sullivan’, de Arthur Penn. Sei que, a partir daí, a carreira de Mulligan mudou e, sempre associado aio produtor Alan J. Pakula – que depois virou diretor -, ele fez filmes com astros e estrelas, mas num formato ‘pequeno’, histórias verossímeis de gente comum, batalhadora. Natalie Wood fazia a balconista grávida do músico Steve McQueen em ‘O Preço do Prazer’ – e foi a primeira vez que a palavra ‘aborto’ foi pronunciada numa produção de Hollywood -; Sandy Dennis fazia a professora idealista de ‘Subindo por Onde Se Desce’; e existe aquele filme com Barbara Hershey e Michael Sarrazin, sobre o que, ou como, era ser jovem em Maio de 68. Nunca mais revi ‘À Procura da Felicidade’, sobre estudantes, sobre o clima de contestação da época, e sempre me pergunto se o filme é mesmo bom como me parece, vagamente, na lembrança. Falei em gente comum, mas num determinado momento algo começou a mudar no cinema de Mulligan e ele começou a se interessar por destinos, digamos, mais excepcionais. ‘Inside Daisy Clover’ narra a biografia (fística) de uma estrela jovem de Hollywood. Natalie Wood deve ter colocado muito de si no papel. Ela se apaixonava por um galã gay, se rebelava contra a máquina que queria dominar sua imagem e me lembro perfeitamente do final. Ela explodia a casa de praia e alguém perguntava em primeiro plano o que havia acontecido e ela respondia – ‘I think somebody declared war’ (Acho que alguém declarou guerra). Como se chamava ‘Inside Daisy Clover’ no Brasil? Alguma com ‘Destino’, tenho certeza, mas não deve ser ‘À Procura do Destino’ (ou então o outro não é ‘À Procura da Felicidade’). E aí, pelo seu perfil, no finalzinho dos anos 60 e começo dos 70, com o mundo todo em ebulição, Mulligan, que não parecia o homem indicado para isso, fez três grandes filmes de gêneros – o romântico ‘Houve Uma Vez Um Verão’ (Summer of 42), o western ‘A Noite da Emboscada’ (The Stalking Moon) e o outro cujo gênero está no próprio título, ‘A Inocente Face do Terror’ (The Other), baseado no livro do ator Tom (‘O Cardeal’) Tryon, sobre gêmeos e usurpação de identidade quando um deles morre, um filme de um refinamento excepcional, mas assustador a ponto de enregelar a medula e com a participação de uma atriz mítica, Uta Hagen, no papel da avó. Mulligan esteve depois a ponto de ser queimado porque fez, com Sally Field – a criatura menos indicada do mundo para o papel, mas ele também não deveria ter sido o diretor, convenhamos -, o remake hollywoodianmo de ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’. Mas ‘No Mundo da Lua’ é bem bonito, o despertar da sexualidade de uma garota no quadro das transformações dos anos 60 – ela vive no mundo da Lua, mas o homem, na época retratada, está desembarcando na Lua. Tive de dar uma parada no texto para entrevistar Arnaud Desplechin, o diretor de ‘Conto de Natal’, que estréia na quinta. Minha cabeça agora começa a girar em outra direção, mas devo tanto a Mulligan. O cinema deve a ele. Não representa pouca coisa ter criado o maior herói do cinema norte-americano.