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Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2006 | 10h25

TESSALONICA – Estava ontem ah noite no Cine Olympion, para a homenagem a Wim Wenders, quando soube da mortte de Robert Altman. Imediatamente tentei encontrar um cybercafeh para postar alguma coisa, mas nao havia nenhum nas imediacoes da Praca (leia-se prassa) Aristoteulos, ou entao eu nao soube procurar direito. No longo minuto de silencio pedido pelo mestre de cerimonias da noite, imagens passaram pela minha cabeca e me baixou uma tristeza infinita. Acho que eh assim mesmo que as coisas funcionam na morte. Temos sempre essa tendencia a apagar aquilo de que nao gostamos e a guardar somente o melhor de quem se foi. Nao eh segredo para ninguem que eu nao gosto dos filmes recentes de Altman – Dr. T e as Mulheres, Assassinato em Gosford Park e A Ultima Noite. Sei que tem gente que acha estes filmes a suprema depuracao do estilo de um velho sabio (Altman estava com mais de 80 anos), mas eu confesso que vejo uma diluicao de suas melhores qualidades. Mas devo muito a Altman. Ele jah havia feito dois filmes quando foi revelado internacionalmente pela Palma de Ouro que recebeu em Cannes, em 1970, por MASH. Era diferente ver o filme naquela epoca. Em plena Guerra do Vietnah e em plena ditadura militar, vinha aquele cara iconoclasta contando a historia daqueles dois cirurgioes do Mobile Army Surgical Hospital. Os caras eram acougueiros. Decepavam membros, costuravam as pessoas rebentadas e entre uma cirurgia e outra pensavam nos prazeres da vida – sexo, sexo, sexo e uma partidinha de golfe ali, do lado do campo de batalha. Elliott Gould e Donald Sutherland viraram icones da epoca, como Jack Nicholson, e havia a personagem de Sally Kellerman, a enfermeira chamada de Labios Ardentes (por que serah, hein?) que incendiava nossa imaginacao (a minha e a da torcida do Inter, em Porto Alegre). Gosto muito de alguns filmes que Altman fez a seguir. Suas obras-primass sao Nashville e Um Perigoso Adeus, de novo com Elliott Gould (como Philip Marlowe), o supra-sumo do filme de genero, numa epoca em que Hollywood redescobria ou revalorizava o filme noir. Gosto bem menos de alguns filmes-cabeca do Altman (Quinteto e Tres Mulheres) e acho que a obra dele eh irregular pelo proprio metodo, essa soma de Jean Renoir (A Regra do Jogo) com Luis Bunuel – a formula de soltar a camera enrtre diversos personagens, que ele assimilou de O Discreto Charme da Burguesia. Gosto muito de outros filmes de Altman – o western Quando os Homens Sao Homens e Imagens, que tem aquela historia linda do unicornio, contada por Susannah York. O Jogador nao me impressiona muito, mas eh respeitavel, como Short Cuts – Cenas da Vida, embora a solucao final do terremoto seja ateh certo ponto uma facilidade que Altman repetiu no ciclone de Dr. T. Independentemente de gostar menos de alguns filmes ou de nao gostar, Altman foi importante por sua defesa, eu diria mais – por sua pratica de um cinema autoral dentro de um processo tao industrial como eh Hollywood. Mais do que pelos temas, ele era autor pela linguagem, discutindo a imagem antes que isso virasse moda. Na morte, como jah disse, ficam soh as boas coisas. Citei os filmes ruins, os de que nao gosto, mas se este post tivesse som o fundo agora seriam as musicas de Voar Eh com os Passaros, naquele vertiginoso voo da camera por entre as nuvens. Em Berlim, em fevereiro, estava nao me lembro com quem quando vimos Altman passar a caminho da sessao oficial de A Ultima Noite, com a mulher. Pareceu tao fragil, tao velhinho. Nao sei se fantasio, mas quem estava comigo – uma mulher, com certeza -, comentou que ele estava no bico do corvo. Nao sabiamos quao perto Altman estava da morte. Se soubesse, teria sido muito mais reverente com ele. Quando foi grande, Altman foi imenso.

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