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Luiz Carlos Merten

05 Junho 2008 | 08h56

Mário Kawai me cobra que começou o ciclo do Altman no CCBB e eu fico aqui comentando o sexo dos anjos ao invés de falar sobre o grande diretor que morreu no fim de 2006. Mário lembra que escrevi parte do catálogo da mostra e nada no ‘Caderno 2’ – foi Ubiratan Brasil quem fez o texto -, mas foi justamente por isso, Mário. Uma questão ética. Já que participei do catálogo, não era correto, jornalisticamente, que eu fizesse a matéria de apresentação do evento. Ia fazer no blog, mas se vocês soubessem quanto tempo perdi ontem no tráfego, entenderiam como e por que fui forçado a fazer forfait. Ia escrever agora pela manhã, aliás, vou escrever, mas fui atropelado pela reclamação do Mário. Quero dizer que quando os curadores da grande mostra Altman me convidaram para escrever sobre uma década da carreira dele, eu escolhi os prodigiosos anos 70 porque é neles que se concentram os meus filmes favoritos do diretor. Amava o Altman, e acho que ninguém, em Hollywood – ou no cinema norte-americano, já que ele foi sempre um tanto marginal -, savia refletir tão bem sobre a questão da linguagem, da imagem mesmo. Altman já tinha quase duas décadas de carreira quando o humor corrosivo de ‘MASH’ lhe deu a Palma de Ouro em Cannes (e o colocou no mapa do cinema mundial). Existem filmes dele que adoro – ‘McCabe and Mrs. Miller’, cujo título em português era ‘Onde os Homens São Homens’ e depois virou ‘não-sei o quê & Trapaças’; ‘Imagens’ ‘O Perigoso Adeus’; ‘Jogando com a Sorte’/California Split, por este sempre fui louco, é o grande filme sobre jogo da história de Hollywood -; e, claro, sua obra-prima, ‘Nashville’. Acho que Altman chegou aí ao auge, mas o filme também teve, na minha avaliação, um efeito negativo. Altman achou em ‘Nashville’ o que virou uma fórmula – ele passou a soltar a câmera entre vários personagens, mudando, de filme para filme, o tema e o ambiente para disfarçar que estava seguindo a lição de Tancredi em ‘O Leopardo’. ‘As coisas precisam mudar para ficar as mesmas.’ Uma elementar questão de linguagem. Altman virou um gênero de si mesmo. Tive um único e breve encontro com Altman em Cannes, numa época, há quase 20 anos, em quye ainda era possível tentar um corpo-a-corpo com os grandes autores que circulavam na Croisette. Provoquei Altman dizendo que este método era uma lição que ele absorvera de Buñuel, ‘O Discreto Charme da Burguesia’, e ele não foi muito receptivo, embora me lembre que tenha olhado para trás, tipo assim para ver bem quem eu era, o sujeitinho que num inglês ainda incipiente – melhorei bastante – lhe dizias algumas inconveniências. ‘West Selvagem’, ‘Cerimônia de Casamento’, ‘O Jogador’, ‘Short Cuts’, ‘Pret-à-Porter’, ‘Kansas City’, ‘Doutor T’. Em cada um desses filmes pode-se encontrar o momento regenerador, ou grandes interpretações, ou grandes isso e aquilo, mas o meu Altman já se havia ido. Confesso que me irritei particularmente com ‘Assassinato em Gosford Park’. Sou leitor de Agatha Christie, vocês sabem, e o Altman resolveu mostrar que era ‘superior’ à Dama o Mistério. O filme dele é uma dupla diluição, de Agatha e também de Jean Renoir (‘A Regra do Jogo’), do qual se trata quase de um remake disfarçado. Acho que, dos anos 80 em diante, só um filme do Altman me apanhou de verdade – foi ‘Vincent and Theo’, um pouco, talvez, por tratar da relação simbiótica do grande pintor com seu irmão, e vocês sabem que ‘Cartas a Theo’ é um paradigma para mim, mas também porque acho a direção notável, com uma direção de arte maravilhosa, assinada por Stephen Altman, filho de Robert, e isso penso que também tem a ver com a relação familiar de que trata o filme. Isto post, é claro que o evento Altman do CCBB é importante. Espero rever alguns filmes, talvez até alguns de que não gosto tanto. Quem sabe…?

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