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Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2008 | 11h11

Acho que o que primeiro me encantou no cinema de Aldrich foi sua fixação nos gêneros. Sou da classe de 1945. Quando ele fez seu primeiro grande filme, ‘O Último Bravo’ (Apache), já estava com 9 anos, mas devo ter visto meu primeiro Aldrich com 14, ou 15. Mais do que com ‘Último Bravo’ me impressionei com outro western, ‘Vera Cruz’. E vieram o noir ‘A Morte Num Beijo’ e o filme de guerra ‘Attack’ (Morte sem Glória), em que a perseguição daquele tanque parecia uma coisa de western. Antônio Moniz Vianna, no ‘Correio da Manhã’, dizia que com esses quatro filmes e mais ‘A Grande Chantagem’, sobre os bastidores de Hollywood, Aldrich ampliava a revolução de Orson Welles em ‘Cidadão Kane’ e fazia o melhor cinema do mundo. Depois, tão vertiginosamente como começara, Aldrich pareceu ter terminado. Os problemas com os produtores liquidaram ‘Clima de Violência’, ‘Colinas da Ira’ e ‘A Dez Segundos do Inferno’. Foi quando ele fez ‘O Último Pôr-do-Sol’, que P.F. Gastal, em Porto Alegre, definiu como ‘frustrado, porém interessante’. Novo tropeço, ‘Sodoma e Gomorra’, e aí foi o espanto, o que terá acontecido a Robert Aldrich, perguntavam-se todos? ‘O Que Aconteceu com Baby Jane?’ – por mais desconcertante que tenha sido o guignol de Aldrich com Bette Davis e Joan Crawford, foi aí que ele recomeçou. Com o dinheiro que ganhou com este filme e, depois, com ‘Os Doze Condenados’, Aldrich montou um estudio, adquiriu independência e recomeçou. Não era mais uma unanimidade, mas eu, pelo menos, passei a gostar ainda mais dele. Aldrich voltou a explorar os gêneros – guerra, western, gângsteres, noir, bastidores da indústria. E o fez com astros, cores, com uma linguagem tão vertiginosa em termos de eficácia e eletricidade que era como se ele estivesse reinventado o próprio espetáculo hollywoodiano. A indústria não lhe permitira abordar o homossexualismo feminino em ‘Pânico em Singapura’? Ele foi fundo em ‘A Lenda de Lylah Clare’ e Triângulo Feminino’ (The Killing of Sister George), mostrando aquelas mulheres no cio, se esfregando, lambendo, uma coisa louca. ‘Resgate de Uma Vida’, adaptado de James Hadley Chase, é um filme sobre a luta de classes metamorfoseado em aventura de gângsteres. Poderia ter sido assinado por Joseph Losey, de quem Aldrich, aliás, foi assistente de direção. A violência virou sua marca, como a de Sam Peckinpah. Um dos grandes westerns é ‘A Vingança de Ulzana’, na cena em que McIntosh (Burt Lancaster) conversa com Kenitay ao pé do fogo e Jorge Luke lhe explica por que o chefe índio escapou da reserva e está pilhando e matando. E ele fala com calma, explicando as diferenças culturais. Outro dia me surpreendi lembrando da cena e pensei comigo se ela não poderia ser adaptada para os tempos atuais de ataque do terrorismo? Aldrich foi e ainda é um dos meus ícones. Ele queria Ava Gardner no papel de Dorothy Malone em ‘O Último Pôr-do-Sol’. Foi talvez a melhor coisa que Kirk Douglas fez – impor Dorothy. O filme é um western sobre incesto. Dorothy tem três maridos – viúva, reencontra o ex-amante (Douglas) e está claro que vai se casar com o xerife Rock Hudson. Douglas se envolve com a filha dela, que, na cena-chave, veste a roupa de casamento da mãe – e a garota é filha do pistoleiro. O filme se conclui por um suicídio disfarçado, exatamente como ‘Um de Nós Morrerá’, de Arthur Penn, sobre o qual falei ontem. Estarei contando o desfecho? Sorry, mas duvido que isso elimine o lemento surpresa. Faz tempo que não vejo ‘O Último Pôr-do-Sol’, mas até onde me lembro é um filmaço. Tem algo do barroquismo dos westerns de King Vidor, mas é muito mais um bangue-bangue filtrado pelos melodramas de Douglas Sirk, em que tudo ocorre em família (e as presenças dos ‘sirkianos’ Rock Hudson e Dorothy Malone realça ainda mais a releitura do gênero por Aldrich). Toda a obra do autor exala o sentimento de um mundo em perigo. Não existem heróis puros no cinema do diretor e apesar do gesto redentor de Gary Cooper no desfecho de ‘Vera Cruz’ ele não é certamente o mocinho ‘positivo’ que representou para outros grandes autores de westerns. Poderia ficar falando horas sobre Aldrich, mas preciso caminhar (faz parte da minha recuperação diária). Não resisto a terminar citando François Truffaut, que amava o roteiro de ‘Vera Cruz’ e dizia que, se John Huston fosse um ‘autor’, este seria o grande filme que ele talvez conseguisse realizar. É óbvio que Truffaut, como, de resto, toda ‘Cahiers’, na fase de capa amarela, não gostava de Huston, ao contrário de Aldrich, que a revista idolatrava.

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