Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ritt foi a consciência de esquerda em Hollywood

Cultura

Luiz Carlos Merten

02 Agosto 2010 | 16h06

Marcelo Magalhães conta que ficou impressionado com ‘O Espião Que Saiu do Frio’, de Martin Ritt. Impressionado fiquei eu quando assisti ao filme na estrteia brasileira, acho que em 1967.  A produção é do ano anterior e, naquela época, os filmes demoravam mais para chegar ao circuito, talvez porque hoje ele seja formatado para a produção de Hollywood e, naquele tempo, o mercado do Brasil abrigava filmes japoneses, suecos, italianos, franceses etc. Em 66/67, James Bond já vivera quantas vezes – duas? três? – e aí, com base em John Le Carré, vinha o Martin Ritt com aquela (anti)aventura de espionagem, grave, densa, desmistificadora e o preto e branco do filme era deslumbrante, como já havia sido o de ‘O Indomado’. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard lembra que Ritt entrou para a lista negra do macarthismo e foi lecionar no ‘Actor’s Studio’, onde foi professor de James Dean. Gosto muito de ‘O Indomado’, que descobri na TV paga – a cena da matança do gado é impressionante; no cinema, não me atingira tanto -, e do ‘Espião – Burton é magnífico e o filme tem Claire Bloom, só isso já o torna admirável, mas o ‘meu’ Martin Ritt começa com ‘Hombre’ e prossegue com ‘Sangue de Irmãos’, ‘Ver-Te-Ei no Inferno’, ‘A Grande Esperança Branca’ e ‘Sounder’, Lágrimas de Esperança. ‘Ver-Te-ei’, The Molly Maguires, é o filme mais radicalmente político de Hollywood numa fase tão inflanada quanto foi o final dos anos 1960. E o plano sequência inicial! Scorsese e o fotógrafo Michael Balhaus o viram, com certeza, antes de criar a abertura de ‘Os Bons Companheiros’. James Earl Jones e Jane Alexander me encantam em ‘A Grande Esperança Branca’ e Sounder, o cachorrinho daquela família negra e pobre, é a Baleia de Hollywood. Lembram-se da cachorro de ‘Vidas Secas’? A decadência de Sounder, alquebrado, serve de metáfora para a situação dos negros e tanto ‘A Grande Esperança’ quanto ‘Lágrimas’ são marcos, para mim, da luta de Hollywood contra o racismo. Martin Ritt, por sua generosidade e engajamento político, representou a consciência de esquerda em Hollywood. Não gosto muito de ‘Conrack’ nem de ‘Stanley e Íris’, mas Woody Allen nunca foi melhor ator do que dirigido por Ritt em ‘Testa de Ferro por Acaso’. E nenhum outro diretor do cinemão falou de religião como ele. O padre faz um sermão contra os revolucionários em ‘Molly Maguires’. A mãe ergue o dedo acusador contra Deus porque seu filho está morrendo em ‘Reencontro de Amor’, Pete’n’Tillie’. E em ‘Lágrimas’, a velha igreja está fechada para os negros. Tem um filme de Ritt que adoraria rever. ‘As Quatro Confissões’, The Outrage, baseia-se em ‘Rashomon’, de Akira Kurosawa, cuja ação é transposta para o western. Lembro-me de imagens – a fotografia é em preto e branco – e Edward G. Robinson faz o narrador que ‘filosofa’ sobre os acontecimentos. Paul Newman estuprou Claire Bloom? E por que o marido dela, Laurence Harvey, não reagiu? Toda verdade é relativa, ou não? Os fatos comportam múltiplas versões, segundo o ponto de vista dos participantes. O filme não dispõe de muito boa reputação, mas gostaria de rever. Mesmo.