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Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2010 | 11h53

Régis assina um comentário bem interessante no post sobre Otto Preminger – ‘Como você sabe que nunca fui negro?’ -, a propósito das complicadas relaçõ0es do grande diretor com os atores. Aquela história do Kirk Douglas é real e havia me chamado a atenção. Preminger gritou com Kirk no set de ‘A Primeira Vitória’, ele chegou cara a cara com o diretor e retrucou baixinho – ‘Quer falar comigo?’ Preminger nunca mais o incomodou, porque deve ter percebido que o jogo seria duro. Chris Fujiwara, que conta o episódio em seu livro ‘The World and Its Double’, acrescenta que o pai de Michael Douglas não considerava Preminger um grande nem sequer um bom diretor. Particularmente, dou o desconto. Há alguns anos, Kirk recebeu um merecido Urso de Ouro de carreira em Berlim. Falava com dificuldade, após os derrames, mas lá estava o homem, uma lenda de Hollywood. Kirk Douglas minimizou a parceria com Stanley Kubrick (‘Glória Feita de Sangue’ e ‘Spartacus’) e revelou que seu filme preferido é ‘Sua Última Façanha’, Lonely Are the Brave, do começo dos anos 1960, com roteiro de Dalton Trumbo e direção de David Miller. O filme é sobre caubói moderno que foge da cadeia, rouba cavalo e é perseguido por um grupo de policiais que utiliza meios de transporte avançados, incluindo um helicóptero (que ele derruba com um tiro). Gosto bastante do filme e sempre achei impressionantes as cenas dos cascos do cavalo derrapando no asfalto, mas o filme não é melhor de coisa nenhuma, embora seja revelador da natureza do próprio Kirk. Como astro-produtor, ele preferia ter um diretor dócil como David Miller à sua disposição, ao invés de um ‘autoral’ como Kubrick. Lembrem-se de que Kirk demitiu Anthony Mann do set de ‘Spartacus’. Talvez ele não gritasse como o irascível Otto, mas na hora de mostrar poder também sabia ser truculento. Aproveitando, Mauro Brider conta que reviu recentemente ‘O Rio das Almas Perdidas’  e gostou muito do western com Robert Mitchum e Marilyn Monroe. O filme é de, quando?, 1953 ou 54, quando Preminger ainda estava preso à Fox, mas já terminava seu contrato. Logo em seguida, como produtor independente – na United, na Columbia e na Paramount -, ele desenvolveu a fase mais ambiciosa de sua carreira. Foi seu único western e Jean Tulard, fã do filme, diz que Preminger teria sido um grande diretor do gênero, se persistisse. Revi ‘River of No Return’ recentemente na TV paga. Peguei o filme andando, mas revi com imenso prazer a história de Mitchum que resgata Marilyn e Rory Calhoun das corredeiras e este último retribui fugindo com o cavalo e deixando Mitchum, seu filho e MM à mercê do ataque dos índios. Nos grandes filmes ‘políticos’ de Preminger, o diálogo é sempre maduro (e importante), mas nesse, mais do que em qualquer outro, a mise-en-scène me parece essencialmente visual. A exuberância da paisagem faz lembrar Anthony Mann, com o acréscimo do Cinemascope, e tem seu equivalente na carnalidade de Mitchum e Marilyn. Ele é todo músculos, ela é toda curvas (e ainda canta ‘I’m Gonna File My Claim’). Nunca estiveram mais ‘belos’. O filme é bom, mas me deixa na vontade. Não vejo muita densidade na história nem nos personagens. ‘Passa’ como a própria balsa no rio, sem deixar marcas.