Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ridley Scott

Cultura

Luiz Carlos Merten

24 Novembro 2006 | 15h05

Ainda não tive tempo de ligar para o pessoal da Fox para saber se o lançamento é mundial ou somente nos EUA e na Europa, mas na passagem por Paris li alguns textos sobre a edição especial de Kingdom of Heaven, do Ridley Scott. O filme está sendo lançado, para colecionadores, na versão do diretor, que tem 45 minutos a mais que a versão lançada nos cinemas no Brasil. Na entrevista em Nova York, Eva Green, que co-estrela o novo James Bond, Cassino Royale, havia reclamado da Fox, dizendo que a montagem do estúdio reduzia a personagem dela a uma figura decorativa. Justamente a princesa de Jerusalém é uma das personagens que mais ganham na nova versão do filme de Scott. Confesso que nutro um sentimento meio ambivalente em relação a ele. Gosto de Alien e Blade Runner, gosto um pouco menos de Thelma e Louise, mas o filme, como os dois anteriores, virou cult e isso o coloca numa categoria especial. Na verdade, tenho a impressão que os filmes do Ridley Scott de que gosto são os detestados pela maioria da crítica – acho impressionante o Saladino de A Cruzada e fico siderado cada vez que vejo Falcão Negro em Perigo. Nenhum outro filme me pareceu fazer tanto a autópsia da guerra como momento de caos, coisa que Tolstoi (em Guerra e Paz) e Stendhal (em A Cartuxa de Parma) já haviam antecipado na literatura. Aquele soldado com as tripas de fora fornece um contraponto terrível à lógica do general, que contabiliza as perdas humanas e diz que são razoáveis, mandando prosseguir com a ofensiva. Tudo isso é visto do ponto de vista dos americanos (e o episódio focalizado ocorreu com eles, na Somália), mas aí vem a cena que me corta a respiração e me deixa sem fala. Ridley Scott não fez uma patriotada americana, até porque é inglês, mas quando aquele pai somalí passa com o cadáver do filho nos braços diante do carro e ele corta o som para que a gente perceba melhor a extensão da sua dor e o impacto sobre o soldado dos EUA que serve de motorista, Deus, aquilo é um comentário sobre a guerra como só os maiores do cinema fizeram, em todos os tempos. Ridley Scott veio da publicidade e, com freqüência, é acusado de formalista, de só se preocupar com a estetização das imagens e etc. Na verdade, acho que seus grandes filmes oferecem um comentário muito interessante sobre os EUA do presente e do futuro. O próprio fato de vir da publicidade lhe dá uma noção muito precisa de timing. Alfred Hitchcoch fez dos 45 segundos do assassinato de Marion Crane na ducha, em Psicose, uma referência do cinema dito moderno. Scott sabe o valor relativo do tempo. A agonia do soldado é longa, a passagem do pai desesperado pela câmera é coisa de segundos. É um diretor que sabe potencializar o tempo para agir no inconsciente do espectador. Será precioso ver para conferir o que representam estes 45 minutos a mais de A Cruzada.