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Cultura » Ridley Scott e seu bom ano

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Luiz Carlos Merten

02 Dezembro 2006 | 18h09

Pedro Butcher, graças a Deus, achou Um Bom Ano muito ruim, o que me tranqüiliza. Já escrevi aqui que vivemos na contramão um do outro e só nos preocupamos quando ocorre de gostarmos do mesmo filme. Mas eu gostei mesmo do filme do Ridley Scott, que acho muito mais complexo do que eu mesmo havia pensado num primeiro momento. Em debates e/ou palestras para estudantes, digo sempre uma coisa que deixa as pessoas com o pé atrás (este cara é maluco, elas devem pensar). Mas eu acho, sinceramente, que o filme é do diretor somente até o lançamento. A partir daí, a gente faz uma parceria, uma co-direção, criando no filme que viu o filme que gosta (ou desgosta). Fui ver Um Bom Ano sem nenhum parti pris, a favor nem contra. Logo no começo, tem aquela cena em que Max-Milhão arma aquela jogada na Bolsa e termina aplaudido pelo seu pessoal. ‘Cause he’s a jolly good fellow’, eles cantam, o que não é nada demais. Mas aí eu me lembrei de um filme argentino que vi em 1973 e que me marcou muito – La Patagonia Rebelde, de Hector Olivera. Hector Alterio faz o militar fdp que reprime os trabalhadores porque acha que é seu trabalho, seu dever e daí, no fim, quando ele desbaratou o movimento operário que ameaçava paralisar a Patagônia, há uma comemoração, os donos da estrada de ferro são ingleses e eles cantam essa mesma música. Olivera estaciona a câmera da cara do Alterio e dá para ver quando cai a ficha e o personagem toma consciência do que fez, ao virar lacaio de interesses internacionais. Amo aquele filme que vi em Buenos Aires, com uma platéia que aplaudia e urrava, num daqueles intervalos entre ditaduras que caracterizava o Prata (Argentina e Uruguai), na época. Ridley Scott, ao construir sua cena, dificilmente deve ter pensado no filme argentino (se é que o conhece, o que duvido). Mas a maneira de filmar e mostrar o canalha é a mesma, uma ponte que eu, como espectador, posso fazer e que torna, para mim, o filme do Ridley Scott melhor e mais fascinante. A partir daí, me entreguei, mas vinha mais coisa bela e emocionante. Há uma cena em que o menino Max está deitado, tomando banho de sol, junto à piscina. Chega aquela mulher que o tio dele vai levar numa visita ao quarto (para fazer você sabe o quê). Ela trouxe a filha. A menina tira a blusa e, num gesto inesperado, salta n’água, atravessando a piscina para dizer, no ouvido de Max, uma coisa que ele nunca vai esquecer. Fiquei siderado com a cena. Há nela um erotismo que beira a pedofilia, embora nada, a rigor, aconteça. Mas é a cena-chave do filme, tendo me lembrado outra de um filme que também me faz delirar. Nunca vi mulher mais bela do que Monica Bellucci em Malena, de Giuseppe Tornatore (nem a jovem Liz Taylor). Já entrevistei Monica e, este ano, como jurado da Caméra d’Or, fiquei pertinho dela numa cerimônia da qual todos os júris participaram (o dela era o principal, que outorga a Palma de Ouro). Aquilo é uma visão, uma exuberância e a cena que acho linda no filme do Tornatore é a do menino que vê aquela deusa passar e tem sua primeira ereção, o que o diretor pega num plano de detalhe, por sobre a calça curta. Imagino que esta seja uma cena que deva falar mais a uma platéia masculina, mas ela vai muito além de qualquer sugestão de pornografia ou pedofilia, como a do filme Ridley Scott. Vejam Um Bom Ano. Bons filmes e vinhos sempre fazem a gente mais feliz.

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