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Luiz Carlos Merten

26 Março 2008 | 20h28

Meu dia está sendo bastante cheio. Às quartas-feiras, normalmente a gente fecha duas edições do ‘Caderno 2’, a quinta e a sexta (com as estréias), deixando pouca coisa para a quinta de manhã. Como viajo amanhã, tive de antecipar várias outras matérias, mas confesso que não gostaria de ter redigido uma que acabo de fazer. Morreu Richard Widmark, aos 93 anos. A morte ocorreu na segunda, após longa enfermidade, e só foi anunciada ontem pela viúva, Susan Blanchard. Richard Widmark faz parte de algumas das minhas emoções inesquecíveis no cinema. Foi um sádico memorável em ‘O Beijo da Morte’, atirando aquela paralítica (atada em sua cadeira de rodas) escada abaixo no clássico policial de Henry Hathaway. O filme é de 1947 e o ator ficou inicialmente marcado pelo papel, mas superou o estereótipo trabalhando com os maiores diretores. Conta a lenda que, durante a filmagemn de ‘O Ódio É Cego’ (No Way Out), de Joseph L. Mankiewicz, de 1950, ele pedia desculpas a Sidney Poitier no fim de cada cena, pelas agressões verbais e físicas que seu personagem racista impunha ao do colega. Richard Widmark era exatamente o contrário na vida – liberal, íntegro e por isso foi um dos meus heróis. Citei aqui no outro dia ‘Minha Vontade É Lei’, grande western de Edward Dmytryk – ‘Warlock’é o título original -, no qual ele faz o homem comum que enfrenta o vilão das pistolas de ouro (Henry Fonda) e o diretor faz o elogio da democracia, penitenciando-se por haver colaborado com o macarthismo. Não saberia, sinceramente, dizer qual o meu filme preferido do Richard Widmark. Talvez um de John Ford (‘Terra Bruta’), ou de Delmer Daves (‘A Última Carroça’), ou ainda de John Sturges (‘Punido pelo Próprio Sangue’), porque ele foi simplesmente poderoso no western. Sua cena de conversa com James Stewart em ‘Terra Bruta’, os dois ao pé do fogo, a câmera parada, um diálogo longo (num filme de ação!), tudo isso era ousado em 1961 e continua genial, 47 anos depois (mesmo que o filme não seja o melhor de Ford, que retomava o tema de ‘Rastros de Ódio’, a caçada aos índios que seqüestraram a mulher branca). Widmark foi grande no western, certo, mas e os seus policiais – o de Hathaway, e ‘O Anjo do Mal’, de Sam Fuller, e ‘Pânico nas Ruas’, de Elia Kazan? No limite, se tivesse de escolher um filme com Richard Widmark, acho que poderia até lamentar pelos outros, mas ficaria com Madigan, o tira que ele interpretou em ‘Os Impiedosos’, de Don Siegel, de 1967, 20 anos depois de ‘O Beijo da Morte’. Madigan/Widmark vivia a urgência e a tensão das ruas, opondo-se à visão distanciada do burocrata interpretado por Henry Fonda. Que filme! Que ator! Foi-se mais um de meus ídolos, e um dos últimos (o último?) daquela geração.