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Luiz Carlos Merten

17 Março 2007 | 19h35

Já vou me desmentindo. Disse que não ia postar mais nada hoje, mas não consigo. Vi ontem à tarde na TV paga Tora!Tora! Tora!, do Richard Fleischer. Quando ele morreu, no ano passado, fiz um necrológio apaixonado no Caderno 2. Acho que Fleischer foi um grande diretor, que fez grandes filmes, mas que foi sempre um tanto limitado pela etiqueta de ‘artesão’, o que o fez aceitar muita encomenda de segunda categoria nos estúdios de que foi funcionário. Paradoxalmente, sua pior fase foi aquela em que Darryl Zanuck, na Fox, o transformou no diretor ‘intelectual’ do estúdio, assinando filmes ambiciosos (e pretensamente psianalíticos) que não representam o melhor do seu ofício. Ia escrever estilo, mas Fleischer fez filmes tão diferentes que é mais fácil falar em constantes temáticas do que estilo. Felizmente, os bons (e até os grandes) filmes predominam sobre os ruins (e medíocres) na sua carreira. Tora! Tora! Tora! surgiu como uma conseqüência de O Mais Longo dos Dias, sobre o desembarque dos aliados na Normandia. O estúdio nos dois filmes é o mesmo, a Fox. O Mais Longo dos Dias, construído quase como um docudrama, é muito bom (e mais impressionante que O Resgate do Soldado Ryan, do Spielberg). De certa maneira, pode-se fazer uma ponte com Star Wars. Como a trilogia antiga do George Lucas, The Longest Day também trata da vitória épica contra o totalitarismo, seja o Império ou o nazismo. Tora! Tora! Tora! se assemelha mais à trilogia recente, sobre a construção do vilão Darth Vader. Seu arco é negativo. O tema é o ataque japonês a Pearl Harbor, que representou um sério revés para os EUA, mas impulsionou o país a entrar na guerra contra o Eixo. Quase 40 anos antes de Clint Eastwood, Fleischer foi pioneiro ao mostrar os dois ângulos em combate no Pacífico. Tora! Tora! Tora! é quase um documentário sobre o 7 de dezembro de 1941, mostrando todos os detalhes, uma sucessão fantástica de erros, que culminaram no ataque – na versão dos americanos e dos japoneses. O filme era um projeto ambicioso. Akira Kurosawa ia fazer a parte japonesa, mas se desentendeu com os produtores e, afinal, Fleischer leva o crédito sozinho. O recente Pearl Harbor, de Michael Bay, era muito mais impressionante, do ponto de vista dos efeitos, mas o filme antigo é mais sério. Fleischer documenta todos os erros de informação que levaram os americanos a ser surpreendidos e em nenhum momento demoniza os japoneses, o que era uma audácia tão grande quanto a de Clint (afinal, Tora! Tora! Tora! foi feito durante a Guerra do Vietnã). E o filme de três horas tem um instante que o justifica, por si só. Deflagrado o ataque, começa a correria dentro da base. Um militar solicita um mensageiro para levar um documento com urgência ao comandante da base. O garoto é japonês. Não dizem nada. Trocam um olhar e fica tudo subentendido – a dúvida, a suspeita, a paranóia. Quanto? 15/20 segundos sublimes. A inocência, a limpidez no olhar daquele garoto. Tora! Tora! Tora! não é um grande filme, mas eu achei muito ilustrativo acompanhar os lances diplomáticos que cercaram o episódio. O filme termina com a vitória japonesa, mas o general Yamamoto, o comandante da operação, lamenta que a declaração de guerra tenha sido entregue ao embaixador americano, em Tóquio, somente depois do ataque e não meia-hora antes, como estava previsto. Ele diz a frase célebre – “Temo que tenhamos despertado um gigante adormecido.” Acho que o díptico de Clint Eastwood é melhor, mas é curioso que ele não tenha sido o primeiro a querer mostrar os dois ângulos da guerra do Pacífico. Também é curioso que o filme se siga, na carreira de Fleischer, a Causa Perdida, a cinebiografia do Che, com Omar Sharif (e Jack Palance como Fidel), que é o pior filme da carreira do diretor. Fleischer jurou, em mais de uma entrevista, que queria mostrar o pró e o contra o Che e que filmou esse material, mas o estúdio, a Fox, à sua revelia, fez uma montagem tendenciosa, tornando o filme totalmente contra-revolucionário. O que ele queria fazer está mais expresso em Tora! Tora! Tora!. Não me perguntem por que, mas nunca havia visto o filme. Foi legal. Me pacificou um pouco em relação ao único filme do Fleischer do qual, e por ele, eu me envergonhava.

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