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Ricardo Montalbán

Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2009 | 20h54

Felipe observa que não comentei nada sobre a morte de Ricardo Montalbán, ocorrida em meados de janeiro. Mas eu não sabia! Dependendo da data exata, ou estava em Paris, enfiado até o pescoço nos Rencontres du Cinéma Français, ou então gozava minhas férias, entre Paris mesmo e Lisboa, antes de seguir para Berlim (e o festival). Felipe assinala que Ricardo Montalbán fez carreira como estereótipo do amante latino, nos anos 40 e 50. É verdade. Ainda bem que demorei um pouco para redigir o post, porque de cara ia trocar alhos com bugalhos e confundir Ricardo Montalbán como outro galã latino que teve sua fase em Hollywood na mesma época, ou quase (Fernando Lamas). Ia escrever que Ricardo era pai de Lorenzo Lamas -pura idiotice, porque o pai era, claro, o Fernando, casado com Arlene Dahl. Mas, enfim, ambos fizeram carreira no cinema norte-americano. Fernando era argentino, de Buenos Aires. Ricardo, mexicano, acho que da Cidade do México mesmo. Fernando era um pouco mais velho – fui olhar agora e vi que Ricardo Montalbán nasceu em 1920 e, aos 18 anos, foi tentar a sorte em Hollywood, mas demorou um pouco para engrenar. Sua primeira fase inclui filmes como ‘Festa Brava’ e ‘Numa Ilha com Você’, ambos de Richard Thorpe, com Esther williams, e também o western ‘A Marca do Renegado’, de Hugo Fregonese, com Cyd Charisse. Em 1955, por aí, Ricardo Montalbán protagonizou no México ‘Sombra Verde’, de Roberto Gavaldón, e de regresso aos EUA iniciou uma segunda carreira como ator característico – o ator kabuki de ‘Sayonara’, de Joshua Logan, o oficial de ‘As Aventuras de Um Jovem’, de Martin Ritt, e o chefe índio de ‘Crepúsculo de Uma Raça’ (Cheyenne’s Autumn), do mestre John Ford, que eu tenho de confessar, para minha tristeza, que não consegui rever na grande retrospectiva que Berlim dedicou ao formato 70 mm, ‘Bigger than Life’. O canastrão passou a ser reconhecido como ator e, no começo dos anos 70, Bob Fosse permitiu-lhe autocriticar-se no papel do ‘astro’ que leva Shirley MacLaine para sua casa e a esquece em ‘Charity, Meu Amor’ (Sweet Charity), a versão musical de ‘As Noites de Cabíria’, de Federico Fellini, no qual o papel era interpretado por Amedeo Nazzari. Reconheço que, ao contrário de outros ‘necrológios’, não estou conseguindo imprimir muita emoção ao de Ricardo Montalbán. Talvez, se tivesse visto ‘Cheyenne’s Autumn’… Embora aquele não seja considerado um grande Ford – a empresa produtora e distribuidora Warner teria feito gato e sapato com o material original -, existe uma gravidade nas personas de Ricardo Montalbán, Dolores Del Rio e Sal Mineo, os ‘índios’ da história, que sempre me fez querer rever o filme. Kleber Mendonça, que teve mais sorte que eu e conseguiu ver ‘Cheyenne’s Autumn’, ficou desconcertado com uma quebra na narrativa – em pleno adágio fúnebre, Ford introduz aquele intermezzo cômico do último jogo de pôquer de Wyatt Earp (James Stewart), em Dodge City. O efeito era aquele mesmo, mas talvez a montagem de Ford dosasse melhor a tal quebra. E lá se foi nosso Ricardo Montalbán. Não foi um grande, mas teve seus momentos.

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