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Revendo Scorsese (à luz dos comentários)

Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2006 | 11h28

Estou adorando essa polêmica sobre Scorsese e Os Infiltrados, mesmo quando respinga m… em mim. Mas, realmente, já gostei muito do Scorsese. Ia até postar um texto sobre o Scorsese de que gosto, mas antes resolvi dar uma olhada nos comentários e foi bom. Ocorre que ontem eu passei boa parte do dia na rua, fazendo matéria, e o restante em casa, tentando colocar ordem na minha biblioteca de cinema. Tenho, sei lá, centenas de livros e milhares de revistas que se misturaram na mudança – já disse que troquei de endereço, indo de Cerqueira César para Pinheiros –, e está sendo duro colocar as coisas em dia. Ocorre que, lá pelas tantas, eu liguei a TV, no Telecine Cult, e estava passando o Kundun, um Scorsese de 1997, escrito pela Melissa Mathison, ex-mulher de Harrison Ford e autora do roteiro de E.T. Kundun possui a fama de ser o mais atípico dos filmes do Scorsese, embora seja reconhecido como um grande exemplo de cinema narrativo. O próprio Scorsese devia rever de vez em quando o Kundun, porque é, realmente, um esplendor de imagem e som. E, revendo ontem, não achei tão atípico assim. Até tive vontade de repensar a obra e a própria pessoa do Scorsese. Sempre achei que houve uma mudança muito grande entre a fase produzida pela Barbara De Fina, com quem ele rompeu ao se casar com a atual mulher. Eu gostava mais do Scorsese antes, é verdade, mas acho que ele não fez Kundun por acaso, ou só para manifestar sua admiração pelo 14º dalai-lama. Houve aí uma mudança mais forte, mais funda. Essa coisa de se voltar para o intetrior do dalai-lama e mostrar um homem-santo, coisa que os personagens nunca foram, em choque com a violência do mundo – a invasão do Tibete pela China de Mao –, fornece uma chave muito preciosa para as transformações recentes. Uma contradição. Os filmes andam cada vez mais megalomaníacos, e para expressar o mundo interior, ora essa. Voltando aos Infiltrados – Flávia Guerra me disse uma coisa legal, ou que achei interessante, na sexta-feira. Ele reviu Os Infiltrados na quinta e chegou para mim com o seguinte comentário – disse que detesta me dar razão, mas entendeu o meu ponto sobre o Scorsese. O filme é muito bem dirigido (claro!), mas é falso como nota de R$ 3. Aqueles personagens não existem, É um realismo de cinema, personagens de cinema. Tudo é referencial, ou quase tudo. Entendo que seja interessante para algumas pessoas, mas não para mim. Cansei deste tipo de coisa. Não me diz mais nada (e o caso de A Dália Azul, do De Palma, é cem vezes pior. Aquilo, sim, é um horror.)O único ‘personagem’ de Os Infiltrados que me interessa é o de Mark Wahlberg, que concorre ao Globo de Ouro. Acho que, no mundo violento e sem ética de Os Infiltrados, ele se revela o paradigma moral do Scorsese. O filme, de alguma forma, fecha a trilogia que começou com Os Bons Companheiros e prosseguiu com Cassino, embora o próprio Scorsese faça uma ponte curiosa entre seus três últimos filmes, todos interpretados por Leonardo DiCaprio. Ele diz que, para ele, Gangues, O Aviador e Os Infiltrados formam o mesmíssimo filme. Os fãs de Os Infiltrados já tentaram ver o filme por esse ângulo? E já perceberam que essas ‘variações’ são, consciente ou inconscientemente, uma homenagem do Scorsese a três filmes que ele ama, do Howard Hawks, e que também formam uma trilogia – Onde Começa o Inferno. Eldorado e Rio Lobo? Só para fechar – a música do Philip Glass para Kundun é maravilhosa, uma não-música. À noite, fui rever O Ilusionista, do Neil Burger, do qual gostei mais, e a música do Philip Glass é, de novo, sensacional. Uma frase musical que ele repete obsessivamente e que dá o clima de uma história que comporta múltiplas leituras e uma delas é a que se refere à obsessão do personagem de Edward Norton em recuperar a mulher que perdeu na infância. Realmente, (re)ver Kundun foi uma experiência e tanto, que eu recomendo aos amigos e inimigos.

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