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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2007 | 10h47

Achei lindo o que disse Luis Fernando Verissimo ontem no Cultura. Depois de dizer que não é bom de retrospectiva (‘Esqueço o que aconteceu de importante e, quando me lembro, fico na dúvida: foi neste ano mesmo ou no ano passado?’), ele escreveu uma coisa que a mim pareceu muito profunda. ‘As idílicas previsões dos anos 20 e 30 pressupunham um progresso da natureza humana, comparável ao da sua técnica. Não aconteceu, No fim, o que a gente mais sente falta, do passado, é o futuro que ele previa.’ Não é demais? Enfim, vou me arriscar a fazer, se não exatamente uma retrospectiva, pelo menos uma lista de dez mais.
Os melhores filmes do ano. Dois brasileiros, dois documentátrios nas bordas da ficção, ‘Santiago’, de João Moreira Salles, e ‘Jogo de Cena’, de Eduardo Coutinho. Os restantes – ‘Ratatouille’, de Jan Pinkava e Brad Bird; ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, de Andrew Dominik; ‘As Sombras de Goya’, de Milos Forman; ‘Pecados Íntimos’, de Todd Field; ‘A Vida dos Outros’, de Florian Henckel Von Donnerstein; ‘Em Busca da Vida’, de Jia Zhang-ke; ‘Medos Privados em Lugares Públicos’, de Alain Resnais; e ‘Em Paris’, de Christophe Honoré.
Melhor ator? Wagner Moura, o melhor brasileiro, por ‘Tropa de Elite’ – o filme nacional do ano, pelo debate que provocou -; e Ulrich Muhe, o melhor estrangeiro, por ‘A Vida dos Outros’.
Melhor atriz – Carla Ribas, a melhor nacional, por ‘A Casa de Alice’; e Kate Winslet, a melhor estrangeira, por ‘Pecados Íntimos’.
A melhor cena do ano? Vamos fazer as melhores, pois são várias. A do crítico em ‘Ratatouille’, a do policial que socorre o pedófilo que mitilou o próprio sexo em ‘Pecados Íntimos’; as duas mulheres que narram a perda do filho e o difícil caminho de volta para a vida em ‘Jogo de Cena’ – quem é a personagem, quem é a atriz? -; a do trem em ‘O Assassinato de Jesse James’; a da tortura do Padre Lorenzo em ‘As Sombras de Goya’, quando o pai de Ines Barbatua o faz assumir que é um macaco (e o que parece uma brincadeira macabra vai se revelar tragicamente premonitório); a do índio atormentado que a gente vê por um breve momento naquela estrada, no fim de ‘A Conquista da Honra’, primeira parte do díptico de Clint Eastwood; a troca de olhares entre Noel e Araci de Almeida no desfecho de ‘Noel, o Poeta da Vila’, de Ricardo Van Steen; a declaração de amor cantada (ao telefone) em ‘Dans Paris’. Façam suas listas e citem suas cenas, para que eu dê razão ao Verissimo e me pergunte como pude esquecer tal (ou qual) momento.