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Resnais e Schlesinger, resgatados pela Versátil

Luiz Carlos Merten

05 Junho 2014 | 15h57

Comentei agora com Antônio Gonçalves Filho – estou na redação do Estado – o recebimento do novo pacote de DVDs da Versátil. Providence, de Alain Resnais, e Longe Desse Insensato Mundo, de John Schlesinger. Providence é meu segundo Resnais do coração – Hiroshima, Meu Amor será sempre o primeiro – e palavras não dão conta de minha emoção revendo o filme em versão restaurada, na Mostra. Mas fiquei chocado, confesso. Eu, em êxtase, vivendo minha epifania, e a sala lotada começou a se esvaziar. Éramos mais ou menos a metade, no final. Juro que desanimei, naquele dia. Onde andam os cinéfilos? Dirk Bogarde, Ellen Burstyn, David Warner e, principalmente, John Gielgud me fascinam. Ele, naquele jardim, no desfecho… Genial. Surpreendi-me ao encontrar, no DVD de Far from the Madding Crowd, uma frase minha. Não me lembro exatamente qual, mas é alguma coisa que exalta a beleza do filme. Me pareceu despropositada, porque nem é um Schlesinger de que goste muito, mas devo, com certeza, ter escrito aquilo. Situado entre Darling, a Que Amou Demais, também com Julie Christie, e Perdidos na Noite, que fez aquela revolução no Oscar, o filme foi uma produção ambiciosa (da Metro) que fracassou na bilheteria. Já escrevia sobre cinema naquela época, e me lembro do efeito pós-Longe Desse Insensato Mundo na carreira de Schlesinger. Quando ele iniciou Perdidos na Noite, mudando radicalmente, havia dúvida generalizada. Que raio de filme é esse (o novo), cobravam-lhe? Ele ressurgiu com o Oscar e fez, na sequência, seu melhor filme  Domingo Maldito. Longe Desse Insensato Mundo permaneceu sempre como algo truncado. O romance de Thomas Hardy que inspirou Schlesinger e seu roteirista, Frederic Raphael – que escreveu depois De Olhos bem Fechados para Stanley Kubrick -, é maravilhoso. A personagem de Christie, Batsheba Everdene, relaciona-se com três homens (Peter Finch, Alan Bates e Terence Stamp). Dois a arrastam a experiências que ameaçam destrui-la e a protagonista demora a perceber quem a ama de verdade. Sempre me incomodaram muito a frieza da narrativa e o fato de que Terence Stamp não tinha physique du rôle, muito menos temperamento, para fazer o canalha. Mas o filme é bonito, sim. Fotografia de Nicolas Roeg, direção de arte de Richard MacDonald – colaborador habitual de Joseph Losey -, música de Richard Rodney Bennett. A cena em que as ovelhas se precipitam no abismo permanece no meu imaginário e de alguma forma, acho, prenuncia o ataque dos insetos predadores em O Dia do Gafanhoto, outro Schlesinger pelo qual tenho sentimentos ambivalentes, de 1975. O que me atrai em Longe Desse Insensato Mundo, assim, de lembrança, é o rigor do relato, o tédio da vida parada daquela gente. É uma qualidade e também um limite. Estou muito curioso para ver a nova versão do romance. Thomas Vinterberg é o diretor e havia a expectativa de que fosse para Cannes, mas pelo visto não ficou pronta. Talvez Veneza. Carey Mulligan é a nova Batsheba e, por mais que goste dela, não creio que tenha a beleza com que Julie Christie eletrizava os três homens no filme antigo. Vou rever o Schlesinger, prometo.