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Luiz Carlos Merten

01 Janeiro 2010 | 12h32

Havia prometido publicar a íntegra da entrevista de Alain Resnais, que foi editada na edição de dia 25 de dezembro do ‘Caderno 2’. O texto estava enorme e o Bira, meu colega Ubiratan Brasil, que fechava a edição, fez um trabalho criteriosdo. Mesmo assim, restabeleço as duas perguntas que ele cortou. Como já assinalei em outro post anterior, a Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco inicia janeiro de 2010 homenageando Resnais, e começa superbem, exibindo amanhã, meio-dia, seu primeiro longa, pelo qual tenho um carinho todo particular. ‘Hiroshima, Meu Amor’ é um dos meus cults. Leiam a entrevista, que serás dividida em duas partes. As perguntas que faltavam no jornal estarão na segunda parte. Adoro quando Resnais não explica algumas coisas e diz que é ‘apenas’ o diretor. Resnais!

Foi há exatamente 50 anos, no Festival de Cannes de 1959. François Truffaut
recebeu o prêmio de direção, por ‘Os Incompreendidos’, e Alain Resnais, o de
melhor filme da crítica, por ‘Hiroshima, Meu Amor’. A consagração de ambos
selou o reconhecimento internacional da nouvelle vague, o movimento que
revolucionava o cinema francês da época. Resnais, em relação a Truffaut e a
Jean Luc Godard, já era um veterano, de reputação formada no curta, mas ele
é o primeiro a reconhecer a importância que a nouvelle vague teve no
desenvolvimento de sua carreira.
Nos anos e décadas seguintes, Resnais continuou fazendo filmes faróis. Você
pode preferir este ou aquele, mas muitos – quase todos – são marcos
inovadores do cinema, além de sucessos no circuito de arte (como ‘Medos
Privados em Lugares Públicos’, que permanece, ininterruptamente em cartaz na
cidade, há mais de dois anos). Resnais voltou à competição de Cannes, em
maio passado, com ‘Ervas Daninhas’. O júri presidido por Isabelle Huppert lhe outorgou
um prêmio de carreira, por sua extraordinária contribuição ao cinema. O novo
Resnais estreia hoje, como presente de Natal da distribuidora Imovision aos
cinéfilos. O presente do Caderno 2 é a entrevista com o autor. Resnais fala
com exclusividade, mas a entrevista, a seu pedido, foi feita por e-mail. Ele
gravou suas respostas e elas foram transcritas por Catherine Aymar, da
Unifrance.
– Seu novo filme é um presente, uma espécie de comédia romântica não muito
fácil de explicar e mesmo um pouco enigmática. O que o atraiu no livro de
Gailly (que não é conhecido dos brasileiros)?
– Até agora, eu me recusava a adaptar romances porque achava que o diálogo de
um livro não se podia colocar facilmente num filme e, portanto, seria
preciso reescrever tudo. Mas quando descobri o romance de Gailly, comecei a
ler algumas páginas e as li de um jato. Fiquei tão seduzido por seu diálogo
que li correndo seus outros 12 romances, que não conhecia. Acionei meu
produtor, pedindo-lhe que verificasse a possibilidade de adquirirmos os
direitos da obra completa de Gailly, porque eu não conseguia me decidir por
um, entre seus 13 livros. O que me atraía era uma sonoridade, uma voz, e
Jean-Louis Livi, que havia lido alguns, me encorajou a seguir nessa direção.
Jean-Louis me havia pedido, para acelerar o processo, que procurasse o tema
do filme numa peça de teatro, para ganhar tempo. Quando se escreve um
roteiro pode-se demorar muito, nove a dez meses, enquanto uma peça fornece
um roteiro sobre o qual se pode trabalhar imediatamente. Montar uma produção
é complicado, corre-se contra o tempo, é preciso programar o estúdio e os
atores, o que pode demorar bastante. Sou a prova viva disso, pois é raro que
um filme meu não consuma um mínimo de dois anos. Não é que eu vá trabalhar
durante todo esse tempo, o problema é reunir todas as circunstâncias até
chegar ao momento em que o filme realmente começa, quando se grita pela
primeira vez no set ‘Moteur!’ (Ação!).
– Em Cannes, Gailly disse: “Resnais não filma a literatura. Ele compõe imagens
que nos falam de uma coisa inteiramente, do quê eu não estou seguro de
entender, mas, na minha maneira de ver, é o que o cinema deveria fazer”. O
senhor acredita que o importante, num filme, é compreendê-lo ou vivê-lo,
emocionalmente?
– Para mim, o cinema e não apenas ele, a pintura, a música etc. devem ser uma
fonte de emoção, mesmo quando se pretendem didáticos. Já falei dos diálogos
de Gailly, mas é preciso encarar também o estilo como ele escreve seus
livros, cheio de surpresas e de frases enigmáticas, que ele interrompe de
repente, dando a impressão de que tudo é improvisado, quando, pelo
contrário, tudo é muito elaborado e possui um charme violento, emprego
“charme” no sentido mágico do termo, mas o que eu penso e que nem Gailly
poderia prever, é que suas palavras tenham estimulado um certo tipo de
imagens. Reivindico que meu desejo era de fidelidade em relação à totalidade
de sua obra. Procurei atores que os fotógrafos, assistentes e técnicos,
todos, como eu, apaixonados pela escrita de Gailly, considerávamos ideais. A
ideia sempre foi encontrar o equivalente do estilo de Gailly, não somente
nos diálogos. Para mim, o que há de interessante no filme é a parte de
mistério que ele contém e quando esse mistério provoca emoção, esta é a
regra do jogo. Se fosse para ser enigmático por nada, não teria o mínimo
interesse.
– O senhor não tem medo de ser ridículo, porque o comportamento de Michel
Dussolier e Sabine Azéma, em cena, toca tanto o ridículo como o sublime. É
como se o senhor quisesse nos mostrar a infinita gama das afirmações e
incertezas de que homens e mulheres são capazes. O senhor pensa muito na
psicologia dos personagens?
– Não sei se é o termo, mas a maior parte de nossas ações são intuitivas (não
reflexivas) e só depois é que a gente tenta dar uma ordem ou encontrar um
sentido nas decisões que tomou. O momento da decisão, em si, depende de uma
mistura química que envolve o cérebro e o corpo, como com todos os animais.
Não sei se o termo ‘psicologia’ se aplica, mas quando filmamos uma cena
creio que todos, atores, técnicos e o diretor, devemos nos perguntar: “De
onde vem esse personagem, o que ele pretende? E o que fará depois?”
Isso não precisa necessariamente fazer parte da trama, mas é mais agradável
para trabalhar e nos permite discutir num terreno mais sólido, ao invés de
dizer “Eu leio o texto sem tentar interpretar o que poderia haver entre o
que o roteirista escreveu e o espectador”, o que seria uma outra coisa. Com
toda humildade, acho que partimos de Stanislavsky, cujas reflexões já tem
100 anos. Será isso a psicologia? Mas é verdade que sempre peço ao
roteirista que me faça uma biografia do personagem. Quero saber tudo – seus
gostos, doenças, relações familiares, o que gostaria de ter feito na vida, o
que não chegou a concretizar e isso, em geral, desencadeia conversas muito
ricas entre os atores e os técnicos, que eu, aliás, não gosto de separar
durante o processo de feitura do filme.
– Dussolier dá a impressão de haver criado para seu personagem uma espécie de
outra vida. É isso que o impulsiona em direção à mulher. O que o senhor
pensa?
– Pensei os atores em várias interpretações possíveis, partindo do princípio
de que as pessoas que encontramos na vida são sempre um mistério para nós.
Nunca se sabe o que se passa na cabeça dos outros, mesmo as palavras da
linguagem podem adquirir um significado diferente, segundo a época em que
foram pronunciadas e, por isso, tenho a impressão de que vivemos num mundo
de incertezas. Tentamos sempre ser razoáveis, mas nossas ações nem sempre
seguem as intenções nem os propósitos que temos. E, às vezes, lamentamos de
certas decisões que tomamos, mas que no momento nos pareceram de primeira
necessidade. Os personagens, claro, têm contradições, mas isso me parece
natural. É como ser fiel à vida cotidiana. Mas, atenção, não digo isso de
maneira pedagógica nem pretensiosa. Jamais cometo o equívoco de me sentir
superior aos personagens nem me sinto responsável pelo que eles fazem. Tento
ser fiel ao roteiro que filmo e me condiciono à mise-en-scène (direção), que
não é outra coisa senão a colocação desses personagens em seu espaço,
mantendo um tom coerente, não digo justo (quem pode saber?). Esse tom é que
garante a unidade do filme, não importa a diversidade de suas partes.
– Na saída do cinema, Dussolier encontra Sabine e lhe diz: “Então, você me
ama”. Parece uma homenagem a ‘Um Corpo Que Cai’ (Vertigo), quando James Stewart
encontra Kim Novak e materializa Madeleine por meio de Judy. Ao mesmo tempo
pode-se pensar em ‘Hiroshima’ e ‘Marienbad’, em que os homens são sempre
persuasivos e querem penetrar/possuir o imaginário das mulheres. A
observação procede?
– Fico muito feliz e honrado que a cena lhe tenha feito pensar em ‘Um Corpo Que
Cai’, que é um dos meus filmes preferidos, um daqueles que eu admiro enorme e
intensamente, mas tenho de admitir que essa influência nunca foi discutida,
embora muito me agrade. Pura e simplesmente, o que temos ali é a velha
questão das relações entre homens e mulheres, que vem sendo debatida, há
pelo menos 6 mil anos, por todos os escritores. Sempre foi uma vontade de
dominação da parte da mulher como do homem. E esse combate pode se
manifestar no charme, no amor, na ternura, no ódio e é isso que me faz
percorrer caminhos tão diferentes.