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Luiz Carlos Merten

10 Setembro 2007 | 12h18

Achei bem legal o primeiro número da revista Reserva Cultural, da Lazuli Editora, cujo conselho editorial é integrado por Jean-Thomas Bernardini (do Reserva Cultural, o espaço na Av. Paulista). No editorial, o diretor de redação Miguel de Almeida diz que a revista nasce com a intenção de oferecer uma discussão diferenciada, sem estar ligada a nenhuma escola ou tendência e preocupada, principalmente, com a qualidade dos textos sobre cinema. O primeiro número, em cima das mortes de Bergman e Antonioni, homenageia os dois grandes que o cinema perdeu no mesmo dia, mas se eu falo da revista é para manifestar minha inveja (no bom sentido) do professor titular de filosofia e ética da USP, Renato Janine Ribeiro. E não é que ele viu o documentário de Antonioni sobre a China de Mao? Sob o título As Tribulações dos Chineses n’A China, Janine faz considerações estéticas e políticas muito interessantes. Tenho pensado neste documentário de Antonioni, a que nunca assisti. Quando escrevi sobre Em Busca da Vida, de Jia Zhang-0Ke, e na semana passada, quando voltei ao Zhang-Ke, fazendo uma ponte com O Pequeno Italiano, me veio a vontade de ver A China. Antonioni teria sido profeta, antecipando, em 1974, o que iria se passar na China pós-Mao? Jean-Thomas Bernardini, que tem esse lado de agitador cultural tão forte, bem que poderia trazer esse filme raro. É curioso como Antonioni, cuja trilogia da solidão e da incomunicabilidade é tão enraizada na cultura italiana, sentiu essa necessidade de ir para o mundo, no fim dos anos 60. Fez Blow Up em Londres, Zabriskie Point nos EUA, foi filmar a China de Mao, foi ao deserto (e à Espanha) com O Passageiro – Profissão: Repórter e, de volta à Itália, foi dos primeiros a encarar a revolução do vídeo com O Mistério de Oberwald. Uma trajetória e tanto. Só achei a revista meio cara. Reserva Cultural custa R$ 10,90. O primeiro número tem entrevistas com Jorge Furtado, Eduardo Coutinho, Paul Leduc e Marçal Aquino, um perfil de Jean-Claude Bernardet e textos de Luiz Nazário e Rogério Sganzerla (além do já citado de Renato Janine Ribeiro). Existe mais uma entrevista, com o sociólogo Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo. Como Danilo e o Sesc são parceiros dos principais eventos de cinema da cidade, é bom conhecer o personagem (e seus gostos) mais a fundo. Danilo diz que Vidas Secas foi sua porta de entrada para o Cinema Novo; acha Rio Grande, de John Ford, o melhor do gênero faroeste; divide-se entre O Leopardo e Morte em Veneza, quando o asssunto é Visconti; e não deixa por menos – Amarcord, de Fellini, é o maior filme de todos os tempos. Respeito muito o Danilo, mas nosso gosto não bate. Eu prefiro Rastros de Ódio e Depois do Vendaval; meu Visconti do coração é Rocco; e, em matéria de Fellini, sou mais Oito e Meio. Mas, em matéria de Cinema Novo, estamos juntos – Vidas Secas me apanhou na hora e o som estridente daquela carreta eu carrego pela vida, como uma das minhas grandes lembranças no cinema brasileiro.