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Luiz Carlos Merten

21 Setembro 2008 | 12h57

Volto daqui a pouco com a segunda parte do post anterior. Agora, acrescento, e com tristeza, uma informação que me repassou meu colega Ubiratan Brasil, o Bira, que está aqui comigo na redação do ‘Estado’. Morreu, aos 82 anos, Florestano Vancini. Já disse para vocês que tinha um carinho especial por ele, que pertencia àquela geração de diretores italianos por volta de 1960. Imagino que fosse muito duro para os novos talentos chegar e tentar se impor porque os mestres – Luchino Visconti, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni – estavam no auge e havia um gênio mesmo entre esses novos que engatinhavam, o Francesco Rosi que fez ‘O Bandido Giuliano’. Vancini fez, sei lá, dezenas de documentários curtos a partir de 1950, por aí. Em 1959, foi assistente de Valerio Zurlini em ‘Verão Violento’. Sua estréia, em 1960, foi com ‘A Noite do Massacre’ (La Lunga Notte del 43), sobre um episódio controvertido da história da resistência ao fascismo. Vancini baseou-se num livro de Giorgio Bassanio, o autor de ‘O Jardim dos Finzi-Contini’, que Zurlini queria adaptar, mas quem fez o filme foi Vittorio De Sica. ‘La Luga Notte del 43’ mistura História (com maiúscula) e pequenas vidas, gente querendo reagir ao fascismo, que se esfacelava, mas ainda possuía um forte aparelho repressor, além da brutalidade dos aliados nazistas. Ele fez depois ‘La Calda Vita’, com Catherine Spaak e Jacques Perrin, um relato intimista, zurliniano, sobre amores de adolescentes, mas em tom menor. Vanicini incursionou, sob o pseudônimo de Stan Vance, pelo spaghetti western, mas eu confesso que não tenho uma lembrança muito clara de ‘Os Longos Dias de Vingança’, que acho, vocês me disseram, que saiu em DVD só como ‘Dias de Vingança’, com Giuliano Gemma. Em 1966, ele fez o filme que, para mim, é sua obra-prima, ‘Enquanto Durou o Nosso Amor’ (Le Stagione del Nostro Amore), com Enrico Maria Salerno, Anouk Aimée e Jacqueline Sassard, sobre a crise de um homem maduro que repensa tudo – a vida, o amor, o que sonhava para ele, o que efetivamente alcançou. Enrico Maria Salerno fazia um Ulisses meio cansado e certamente nada heróico, mas se eu cito o guerreiro homérico é porque Vancini reproduz a cena clássica da ninfa Nausicaa, numa cena de praia. Na seqüência, Vancini fez dois filmes sobre o mesmo tema, um massacre na Iugoslávia que os livros de História não documentam (nem registram). O primeiro chama-se ‘Bronte’ e foi rodado em sérvio, o outro, feito em seguida, é ‘I Fatti di Bronti’, embora também seja conhecido como ‘Bronte: Cronaca di Un Massacro Che i Libri di Storia non Hanno Raccontato’. Nunca vi nenhum dos dois, mas lembro-me de que, na época, começo dos anos 70, viraram filmes míticos, como alguns dos irmãos Taviani que também não chegavam ao Brasil. Em 1974, em plena euforia do cinema político italiano, Vancini dirigiu ‘O Delito Mattetoti’, com Franco Nero e Vittorio De Sica, que era, até onde me lembro, bem sólido. Houve por aí uma quebra de quatro ou cinco anos na carreira e o Vancini seguinte prossegue principalmente na TV, com filmes e minisséries a que nunca assisti. Seu caso não difere dos de outros talentos do cinema italiano que foram participando da perda geral de importância dessa cinematografia, que agora ressurge com força. Mas eu não posso deixar de fazer o registro. Era bem jovem e aqueles filmes do Vancini me fascinavam – ‘A Noite do Massacre’, ‘Enquanto Durou o Nosso Amor’. Estou me lembrando agora do título do spaghetti western de Carlo Lizzani, ‘Requiescant’, com Mark Damon, que se chamou no Brasil ‘Réquiem para Matar’. Volto ao sentido original da palavra. Descansa em paz, Vancini.

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