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Cultura » Réquiem para ‘Um Condenado’

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Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2010 | 15h42

Em 1957, a Palma de Ouro foi atribuída a ‘Sublime Tentação’, de William Wyler. Só para vocês terem ideia do que foi o luxo do Festival de Cannes daquele ano, o prêmio do júri foi dividido entre Andrzej Wajda (‘Kanal’) e Ingmar Bergman (‘O Sétimo Selo’). Giulietta Masina foi a melhor atriz, por ‘As Noites de Cabíria’, de seu marido Fellini, e John Kitzmuller, o melhor ator, por ‘Dolina Miru’, da Iugoslávia. Está faltando alguma coisa, vocês já perceberam, e é o prêmio de mise-en-scène (direção), que foi para o Robert Bresson de ‘Um Condenado à Morte Escapou’. Não vou dizer que é o melhor filme do autor porque, sinceramente, não creio que seja. Tenho lá minha queda por outros dois trabalhos do diretor – ‘Pickpocket’, de 1959, e ‘Au Hazard Batlthazar’, A Grande Testemunha, de 1966, em que o sofrimento de um burro, um asno, redime a humanidade de seus pecados. Independentemente de preferências, que podem ser, e são, subjetivas, ‘Un Condamné à Mort s’Échappé’ é especial, até para os padrões de Bresson. O filme saiu em DVD. Bresson dizia que seus filmes não se dirigiam para os olhos, mas para o olhar. O condenado que escapa é André Dévigny, da resistência francesa, preso pelos nazistas na fortaleza de Montluc. Bresson filmou no próprio local, escolhendo um estudante de filosofia da Sorbonne, François Leterrier, para o papel do comandante. Hollywood fez vários filmes sobre fugas – da cadeia, do campo de concentração etc. São filmes que quase sempre privilegiam a ação, o movimento. O movimento no filme de Bresson é interior. Durante a 2ª Guerra, o próprio Bresson foi feito prisioneiro pelos alemães. Passou 18 meses num campo de prisioneiros. Foi uma época decisiva de sua vida. Foi quando conheceu o frade dominicano R.L. Bruckheimer e a amizade fortaleceu suas crenças religiosas. Existem críticos que, por meio de Bruckheimer, Bresson virou o apóstolo do cinema, sempre em busca da graça. O personagem de François Leterrier também tem suas convicções colocadas à prova. Sofre a sua via-crúcis, antecipando a da donzela de Órleãs em “O Processo de Joana d’Arc’, de 1962, quando voltou a Cannes e dividiu o prêmio do júri com Michelangelo Antonioni, por ‘O Eclipse’. Naquele ano, a Palma foi para ‘O Pagador de Promessas’, de Anselmo Duarte, do Brasil. Paredes brancas, desnudas. A força do silêncio. Bresson só usa uma vez a música em ‘Un Condenado à Morte Escapou’. É quando Leterrier transpõe o muro e finalmente toca o solo de sua liberdade – não estou contando nada que o título não antecipe. Quando isso ocorre, a fuga, entra a ‘Missa em C Menor’, de Mozart. Muitos críticos se perguntam o por quê dessa moissa, que, como um réquiem, equivale ao ofício litúrgico que se faz pelos mortos. Isso quer dizer que o personagem estava vivo no período em que foi prisioneiro? Tocar o solo foi como atingir a graça, daí o canto litúrgico da missa fúnebre? A questão fica em aberto para vocês, mas uma coisa é certa – bressonianos de carteirinha atingem o nirvana assistindo ao ‘Condenado’. A curiosidade é que, em sua carreira, Bresson recorreu preferencialmente a atores não profissionais, a vozes brancas (e neutras). Poucos escaparam ao anonimato. François Leterrier virou diretor, fez filmes de certo prestígio, incluindo sua adaptação de ‘Un Roi sans Divertissement’, de Jean Giono. O fracasso de ‘Projection Privée’, A Vida Íntima de Três Mulheres, levou-o a aceitar todo tipo de compromisso, até a fazer uma Emmanuelle (‘Adeus…’), com a número 1, Sylvia Kristel. Mas ele carrega a fama, e não é pouca coisa, de haver feito um dos melhores filmes baseados em quadrinhos – ‘Je Vais Craquer’, adaptado de ‘La Course du Rat’, de Gérard Lauzier, com Christian Clavier.