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Réquiem para o gênero do meu coração

Luiz Carlos Merten

25 Outubro 2006 | 14h29

Tenho lá no meu panteão um nicho reservado para Sam Peckinpah. Vi e revi todos os filmes dele, mas tenho algumas preferências (por Juramento de Vingança, Meu Ódio Será Sua Herança e Tragam-Me a Cabeça de Alfredo Garcia, principalmente). Os westerns de Peckinpah lançaram a pá de cal no gênero que o próprio Ford, que esculpiu a lenda, começou a desmistificar em O Homem Que Matou o Facínora. Peckinpah sempre foi criticado pela violência, considerada excessiva, de seus filmes, mas ela era crítica. Sem ele não teria havido, por exemplo, Quentin Tarantino. Tudo isso é para dizer que tive um choque em Berlim, em fevereiro, quando assisti à versão restaurada de Pat Garret e Billy the Kid, que a Warner prometeu lançar em DVD, senão nos cinemas, e até agora estou esperando. Peckinpah foi premonitório das mudanças que iriam ocorrer nos EUA e no mundo – Pat Garret, de 1973, é sobre o mundo globalizado de hoje. Nem Ken Loach, fazendo um western em 2006, conseguiria ser tão atual. Três meses depois de Berlim assisti, em cannes, a um documentário que passa hoje às 16 horas na Mostra – daqui a pouco, no Centro Cultural São Paulo. Réquiem para Billy the Kid, da francesa Anne Feinsilber, foi produzido pelo Luc Besson, o que fez com que todo mundo já torcesse o nariz para a diretora e seu filme. Se tem ligação com Besson, não poderia ser bom, reagiram os críticos. Pois é bom! Anne revisita o filme do Peckinpah, falando com todo mundo que ainda está vivo, para afirmar justamente aquilo que eu senti na Berlinale – que o filme está mais e forte, e crítico, que nunca. E ela ainda conta a história do verdadeiro Billy, com montes de depoimentos, inclusive levantando uma informação que para mim foi novidade. As circunstâncias da morte dele. Não é nada daquilo que o Peckinpah mostrou e que é, muito mais, um epitáfio à moda de John Ford (‘print the legend’). A verdadeira história talvez tenha estado mais para Young Guns (Jovens Demais para Esquecer), 1 e 2. Talvez seja preciso ser fã de westerns para viajar nas imagens de Réquiem para Billy the Kid. De minha parte, comecei a gostar de cinema vendo bangue-bangue. Não perdia um (do John Ford, do Anthony Mann, do Delmer Daves, do John Sturges, do Budd Boetticher, do Howard Hawks, do Raoul Walsh). Minha impressão, assistindo a Réquiem, é que Anne Feinsilber tinha feito o filme para mim.