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Luiz Carlos Merten

12 Junho 2007 | 09h59

Quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha? A velha questão voltou, pelo menos para mim, quando descobri nas livrarias um livro de Zíbia Gasparetto, autora espírita (como Chico Xavier). Chama-se Um Repórter do Outro Mundo e, na capa, consta a informação de que foi ditado a Zíbia pelo espírito de Silveira Sampaio, famoso ator, dramaturgo, diretor e jornalista paulistano dos anos 50, que apresentava o que atualmente chamamos de talk shows. Vocês estão pensando a mesma coisa que eu? Scoop – O Grande Furo? Woody Allen? Será que ele leu, ou pelo menos soube da existência do livro de Zíbia? Por mais despropositado que pareça, faz (algum) sentido. Domingos Oliveira, que deve ser uma das últimas pessoas que ainda se lembra de Silveira Sampaio, diz que ele foi o Woody Allen daquela época. Muito interessante… Aproveito para dizer que li um desses romances espíritas. Aliás, li e reli. A primeira vez foi quando era criança. Há 2000 Anos, de Chico Xavier, ditado pelo espírito Emanuel. Foi na época em que vi Quo Vadis? (e li o romance de Henryk Sienkiewicz) e também Ben-Hur. Duas histórias do tempo de Cristo, como a de Há 2000 Anos. Achei a trama muito legal, cheia de ação, violência, erotismo. Dava um belo épico hollywoodiano, com segunda chance, sacrifício por amor, todas aquelas coisas que Cecil B. de Mille adorava. Não tive muita paciência com o desfecho, umas 30 ou 40 páginas em que os personagens morrem na arena e ficam flutuando como almas. Imagino que, para o autor, aquilo fosse o próprio sentido do romance, mas não consegui entrar na viagem. Reli há alguns anos. Estava no aeroporto de Belo Horizonte, voltando não me lembro de onde, acho que do set de Helvécio Ratton, Uma Onda no Ar. Já não gostei tanto da primeira parte, que é longo, e decididamente não embarquei (de novo), na final. Essa coisa de auto/ajuda não me convence. Tolero, quero dizer, gosto só do Herman Hesse, de Siddarta, que fica se aperfeiçoando na vida, primeiro nos prazeres da carne, depois nos do espírito, e tudo isso à beira do rio sagrado, que fica passando, como a própria vida. Aliás, Siddarta foi filmado por Conrad Rooks, com Sashi Kapoor. O diretor era ligado à vanguarda e à contracultura. É um filme que tenho vontade de rever. Com todos os defeitos que possa ter – é aquilo que os americanos chamam de selfconscious, quer ser artístico (e filosófico) a todo preço –, a fotografia de Sven Nykvist é deslumbrante. E a Índia nunca foi tão bela nem misteriosa no cinema.