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‘Remissões’, que viagem!

Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2011 | 13h08

TIRADENTES – A Mostra Aurora teve um upgrade ontem com o segundo filme da competição, ‘Remissões do Rio Negro’, de Erlan Souza e Fernanda Bizarria. O filme trata das missões salesianas e do seu papel no processo de colonização dos índios na região amazônica. O personagem central é o padre Casimiro Beksta, partindo de um material que ele próprio colheu no local, há mais de 40 anos. A dupla de diretores pensava inicialmente em fazer um filme só sobre o padre Casimiro, mas depois foi atrás dos seus discípulos, que sobrevivem na região. A partir dos contatos com os índios, o eixo foi-se deslocando. Eles contam histórias terríveis de violência dos padres. Achei ‘Remissões’ muito legal. Uma cena para mim é, desde logo, antológica. O padre Casimiro, surdo e que fala um português péssimo, pede à dupla de diretores que grave algum dos índios falando não importa o quê, só para que ele possa ouvir. Há um corte o índio conta alguma história para a câmera em seu idioma. A história, visivelmente, mexe com ele, que termina rindo, mas não há nenhuma tradução e terminamos sem saber o que é. Aquilo me fulminou como um raio. Achei de uma beleza de cortar o fôlego. Fiquei preso no ritmo da voz, mesmo sem saber do que se tratava. E pensei no ‘Serras da Desordem’, de Andrea Tonacci, que respeito e até admiro, como exercício de linguagem, mas sem gostar. O índio do Tonacci fala o tempo todo e a gente nunca sabe o que ele diz. O que sabemos dele é no clipe da Globo que conta sua história. Acho o recurso inteligente – a concessão televisiva ao cinema narrativo, até como crítica -, mas em muitos  momentos, no final, principalmente, eu queria saber o que Carapiru estava dizendo, mas o tempo todo ele é uma ferramenta para o estranhamento e desconforto que o próprio autor (Tonacci) experimenta em relação ao mundo atual. Por defensável que seja, e o filme virou cult, manifesto de jovens críticos, acho aquilo over, um exercício de…, desprovido de verdadeira humanidade. E, então, por que o movimento no filme de Fernanda e Souza foi justamente o oposto? Uma espécie de euforia. “Remissões’ é um filme sobre ‘estrangeiros’, os padres, estrangeiros no Brasil, os índios, estrangeiros na própria terra. E embora todos falem português, o domínio do idioma é sempre precário. A linguagem, nem estou falando da do cinema, é a questão chave de ‘Remissões’. Gostei do filme, mas o final me desconcertou. O padre reencontra aquele, entre seus discípulos, que mais se aculturou. E quando se abraçam, o padre tenta conter sua emoção, mas o índio, mais autêntico e ligado ao primitivo, chora copiosamente. O diálogo é truncado, constrangido, o índio mostra a fotografia da mulher e do filho, que aprende música, como ele aprendeu. E o padre pergunta quem é ela – a mulher? Aquele final me havia perturbado, não propriamente como uma tentativa de pacificação, após tantas acusações aos salesianos. Ele não deixa de carregar essa pacificação – os caminhos, por mais tortos que tenham  sido, levaram a alguma coisa; uma espécie de perdão kazaniano, como no final de ‘Clamor do Sexo’ -, e a dupla de diretores percebe isso, por isso mesmo terminando, de maneira irônica, com um filme de propaganda antigo, que fala  da bandeira e da Igreja, do esforço de integração dos índios em Cristo e na pátria. Fui jantar após a exibição e as primeiras pessoas que encontrei, ao entrar no restaurante, foram Jorge Bodansky e a mulher. Há um agradecimento a ele, fui perguntar o quê. Bodansky me disse que aquele agradecimento o constrangia, porque ele acompanhou o filme e sabia que a mais grave denúncia feita contra os salesianos – abuso sexual e pedofilia – foi excluída. Levei a questão ao debate. A diretora disse que não foi por falta de coragem, por covardia. O filme não foi concebido como obra de denúncia (como aquele do Padilha que acusa o parceiro de Lévi-Strauss de pedofilia, ‘Os Segredos da Tribo’, filme fortíssimo). O recorte é outro, as histórias muitas vezes eram frágeis e Fernanda e Souza também temiam colocar isso, um tanto irresponsavelmente, no filme, partindo depois e deixando os índios entregues à própria sorte. Uma questão ética, portanto. Como muitos filmes da Mostra Aurora, não sei que vida ‘Remissões do Rio Negro’ terá, em termos de mercado. Muitos filmes nascem e morrem aqui, o que é pena, pois são obras admiráveis, como ‘Estrada para Ythaca’, dos cearenses Luiz e Ricardo Pretti, mais Pedro Diógenes e Guto Parente, que venceu no ano passado. ‘Terra’, de Maya Da-rin, foi, de certa forma, a exceção, tendo estreado nos cinemas. Espero que ‘Remissões’ faça esse percurso, que ‘Ythaca’ seja resgatado. Adhemar (de Oliveira), cadê tu?

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