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Luiz Carlos Merten

16 Novembro 2009 | 11h51

Não resisto a comentar a capa de ‘Cahiers’, edição de outubro, que comprei sexta numa banca da Av. Paulista. Quem está na capa? Seth Rogers. A revista dedica páginas e páginas ao novo Judd Apatow, com Adam Sandler, e também ‘redescobre’ Fellini, que até onde me lembro nunca foi um dos ídolos de Godard e Truffaut. Mas me interessa particularmente o Apatow. Quando estreou no Brasil o ‘Gigante’, entrevistei o diretor uruguaio Adrián Biniez e ele teceu os maiores elogios a Apatow. Aproveitei e fiz um post sobre o assunto e alguém fez a ponte entre Apatow e John Hughes, que havia morrido há pouco. Os franceses estão encantados com o diretor de ‘O Virgem de 40 Anos’. ‘Première’ e ‘Studio’ também lhe dedicam páginas e páginas, e uma das revistas, não me lembro qual, chega a listar os dez mandamentos da comédia, segundo ele. O mote para redescobrir Fellini é o lançamento em DVD, na França, de ‘Oito e Meio’, que já saiu há tempos no Brasil. A revista aproveita e faz a revisão de outros Fellinis. Confesso que tenho pensado em Federico, ultimamente, desde que fui cobrado por não ter nenhum Fellini entre os filmes de minha vida, quando participei daquele espaço na Mostra. Recentemente, falei de todos aqueles italianos (Damiani, Vicario, Malaparte etc) e o Fellini sempre me vinha meio de contrabando. Não o troco por Visconti, nem pintado de ouro, mas isso pode ser falha de caráter (brincadeirinha…) minha. Na verdade, queria aproveitar para voltar a Jean-Michel Frodon, ex-editor chefe de ‘Cahiers’, que integrou (presidiu?) o júri da Mostra. Na apresentação, Leon Cakoff teceu loas e disse que tinha projetos com o Frodon. Não imagino quais sejam. Também não li a entrevista dele na concorrência, esculhambando o cinema brasileiro, mas soube que ele veio dizer como deveria ser o cinema do País e aproveitou para descer a lenha em Fernando Merirelles, definindo-o como mau diretor. Foi isso, mesmo? Frodon deve pensar que somos um bando de botocudos, psara vir cagar regras. Na coletiva ele já havia dito qual deve ser o papel da crítica. Eventos como a Mostra sublinham o novo, o alternativo, devemos combater Hollywood, o de sempre. Façam o que digo, mas não o que faço. O júri premiou aquele filme coreano, o que a mim, pelo menos, pareceu estapafúrdio. ‘Cahiers’ põe o Apatow na capa, num reconhecimento de que há vida inteligente em Hollywood. Ou seja, relativizar é preciso.