Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Reinado de sangue

Cultura

Luiz Carlos Merten

12 Julho 2010 | 17h37

Uma palavrinha sobre o ‘Macbeth’ de Aderbal Freire Filho. Tenho acompanhado a obra do diretor carioca confesso que sem muito entusiasmo. Não gostei, sou o único, de ‘As Centenárias’, achei o ‘Hamlet’ um porre – e implorava, no íntimo, para que Wagner Moura parasse de correr, e gesticular, para que a força da palavra de Shakespeare pudesse, por fim, aflorar –, mas confesso que meu ponto mais baixo com o autor foi a sua versão de ‘Moby Dick’. Para consternação do amigo com quem fui ver a peça, no Rio, cheguei a dormir na primeira fila, o que motivou um caco mordaz de um dos atores, dizendo ao Capitão Ahab que cessasse com suas elocubrações para não me acordar. Achei o ‘Macbeth’ bem mais interessante do que tudo o que Aderbal já fez, ou que vi, o que não representa adesão incondicional. Fui ver ‘Macbeth’ pela atriz – Renata Sorrah –, com quem tive o privilégio de almoçar aqui no ‘Estado’, no início da temporada em São Paulo, mas confesso que nem ela nem Daniel Dantas, ele menos ainda, me convenceram muito. Ele não tem physique du rôle e lhe falta dicção. Aderbal me dá a impressão de não se preocupar muito com isso, tolerando demais o naturalismo. Ele tende até a minimizar as grandes falas das peças (‘A vida é uma narrativa cheia de som e fúria, contada por um bobo e que não significa nada’ é dita en passant) e houve momentos em que o carioquês me incomodou. Um pouco mais de rigor não faria mal. A rainha Renata entra em cena mais poderosa, mas a concepção não segura seu foco trágico. Lady Macbeth é um monstro de sensualidade e ambição, mas não senti nada disso e a cena em que Daniel Dantas e ela se atracam no palco devia ter tomado como modelo duas mocinhas que estavam na minha frente e que resolveram transformar a plateia do Sesc Pinheiros no cenário de sua libertação amorosa. A coisa era gélida no palco, mas fervia entre o público. Dito isso, quero dizer que Renata segura sua maior cena – a da mancha inapagável – e também que Aderbal tem uma direção vigorosa de cena, criando um impacto físico, e sonoro, com aquelas brutais entradas em cena de seu elenco predominantemente masculino. Gostei muito do espaço, daqueles tablados nos quais se desenrola a ação. Meu amigo Dib Carneiro desfiou para mim a interpretação de Harold Bloom em seu ensaio ‘Shakespeare, a Invenção do Humano’, mas eu confesso que me falta erudição para acompanhar por que (e como) Macbeth é a matriz de Ahab, que Aderbal montou antes, talvez já como preparativo para sua nova incursão por Shakespeare. O texto é maravilhoso e a riqueza de metáforas de que se vale o poeta para expressar a complexidade de seus personagens é uma coisa de louco. Brincando, poderia escrever que esse tal de Shakespeare promete e, dentro de uns 400 anos, talvez seja reconhecido como gênio. A degradação do caráter do personagem é assinalada em cenas e diálogos pontuais. No começo, de volta da guerra, ele é o primo que está tão adiante que o mais rápido vôo da recompensa seria tardo para alcançá-lo, como lhe diz Duncan, e ele responde que o dever de servir (ao rei) com lealdade paga-se por si mesmo. Depois, progressivamente, vai sendo chamado de monstro raro, exemplar de tirano e usurpador maldito, até merecer o McDuff o comentário final de que o mundo ficou livre de uma peste. Desta maneira, Shakespeare descreve as etapas da trajetória de um homem que não combate no plano interno o mal com a mesma intensidade com que enfrentou o inimigo no campo de batalha. O pior inimigo de Macbeth é ele mesmo, mas ele de alguma forma se redime ao morrer com coragem, mesmo sem merecer o perdão dos inimigos. Macbeth teve versões assinadas por Orson Welles no fim dos anos 1940, ‘Reinado de Sangue’; por Akira Kurosawa dez anos mais tarde, ‘Trono Manchado de Sangue’; e por Roman Polanski no começo dos anos 1970. Acho o ‘Macbeth’ de Welles teatral e um tanto fossilizado, mas ele é certamente impressionante no papel. Gosto mais do de Kurosawa, mesmo achando que sua grande Lady Macbeth é a Dama Kaede de ‘Ran’, em outro Shakespeare (‘Rei Lear’). Tenho de admitir que teria de rever a versão de Polanski, em parceria com Kenneth Tyson, como roteirista e consultor (era considerado um grande especialista no bardo, na época). A crítica perdeu tempo demais criticando Polanski por mostrar sua Lady Macbeth, a bela Francesca Annis, nua (e o filme era produzido por Hugh ‘Playboy’ Heffner). Acharam que era só safadeza, ele dizia que vulnerabilizava ainda mais a rainha já debilitada pela loucura. Tinha um monte de matérias para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’ e entrevistas por telefone. Nem tive muito tempo livre, mas tenho viajado na lembrança de ‘Macbeth’. E tudo começou com o de Aderbal Freire Filho.