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Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2009 | 12h32

RIO – A chuva não para e o centro da cidade já virou um lago. Rio sem sol não dá. Para completar o baixo astral do clima, estou tentando entender até agora o loteamento que o júri do festival, presidido por Fernando Solanas, fez ontem com os prêmios. A esta altura, vocês já sabem, mas o Redentor de melhor filme do Festival do Rio 2009 foi para ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’, de Esmir Filho. Não gostei do filme, embora lhe reconheça certas qualidades. Esmir tem um olho para a beleza e a fotografia de ‘Os Famosos’ certamente não é decorativa. A beleza do filme é ‘conceitual’. Mas não engoli muito mais essa história de teens do diretor. Tá bom, Esmir já mostrou que sabe filmar teens, agora vamos tentar alguma coisa mais adulta. Aliás, há dias estou para fazer uma observação, que, na verdade, nem é minha, mas de uma amiga, que eu encampo. Ela também não gostou de ‘A Paixão segundo Schianberg’, de Beto Brant. Sua observação me pareceu primorosa – Beto deve ter resolvido que ia fazer o ‘Apenas o Fim’ da gente grande e só o que conseguiu foi refazer, em parte, o filme de Mateus Souza sem a paixão que redimia o filme do garoto de suas imperfeições… Volto à premiação. O júri fez uma distribuição absurda dos prêmios. Todo mundo ganhou seu Redentor, todo mundo menos o melhor filme desta edição, que, cada vez me convenço mais, é o ‘Natimorto’, de Paulo Machline. O júri, decididamente, não gostou de ‘Natimorto’. Sei até que o filme teve apenas um defensor, e até sei quem foi, mas prometi não contar. Houve uma tomada de posição dos jurados – contra. Eu, se fosse essa pessoa, teria rodado uma baiana legal e, se era pra fazer reforma agrária, o Machline ia sair com seu quinhãozinho do latifúndio. como não? Rompantes à parte, fiquei indignado que Luiz Carlos Vasconcelos e Chico Diaz tenham dividido o prêmio de interpretação masculina e o júri tenha ignorado Cláudia Assunção, melhor atriz de direito do festival, também pelo filme de Eliane Caffé, ‘O Sol do Meio-Dia’. Meu xará e o Chico mereciam, claro – são maravilhosos -, mas se o júri achava excessivo dar todos os prêmios de interpretação para Lili Caffé, que desse, então, para a estreante Cláudia. Uma menção de melhor ator para Fúlvio Stefanini? Estão loucos? Ou ele ganhava melhor coadjuvante ou bye-bye. ‘Os Famosos’ venceu os prêmios do júri e da crítica. É um filme sintoma, ou diagnóstico. Esmir Filho diz que fez um filme sobre jovens, para jovens. Brinquei com ele – ah, bom, está explicado porque não gostei… Mas questão é a seguinte. O filme trata de uma juventude, uma garotada lá do interior do Rio Grande do Sul, que cria e se comunica pela internet, sem sair de casa. Há não me lembro quantos anos, Leon Cakoff exibiu um filme bem interessante na Mostra de São Paulo. ‘Denise Está Chamando’, de um cara chamado Hall Sawen – se não me engano -, antecipava uma mudança comportamental que, no limite, chega ao filme de Esmir. Denise e seus amigos vivem a típica neurose urbana. Só falam e se comunicam por telefone e internet. Até seu sexo é virtual. Sawen fez o filme dele na era pré-twitter. Era crítico desse ‘admirável’ – assustador? – mundo novo. Ninguém se lembra muito de ‘Denise’ e eu temo que, daqui a pouco, passada a novidade, ninguém também vá considerar ‘Os Famosos’ um grande filme (o que algum dia espero que outras pessoas descubram que ‘Natimorto’ é). Espero até estar errado. sei que Sara Silveira vai tentar alguns festivais internacionais para ‘Os Famosos’, entre eles Berlim, que sempre acolhe bem o cinema brasileiro. Vida longa para ‘Os Famosos’, mas nem se o filme for selecionado para Berlim e ganhar o urso de Ouro eu vou achar que era o melhor do 11º Festival do rio.