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Reflexões (ou lembranças?) da Lagoa Negra

Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2018 | 16h14

Eu falando, em outro post, da ficção científica dos anos 1950 – o ciclo em BH – e o Instituto Moreira Salles trazendo à sua sede em São Paulo O Monstro da Lagoa Negra! Jantamos, Dib Carneiro e eu, com Orlando Margarido e ele contou que houve, ontem, uma cabine do cult de Jack Arnold. Cheguei em casa e fui procurar nos meus e-mails. Não encontrei a chamada para a cabine, mas uma sugestão de pauta do IMS – o ser anfíbio de Arnold foi inspiração para o de Guillermo Del Toro, que, a propósito, está sendo acusado de plágio por seu filme. Ambos foram encontrados nas águas da Amazônia e conta a lenda que a ideia da ‘creature da black lagoon’ – foi sugerida ao produtor William Alland por um cineasta brasileiro, nunca soube quem, que ele teria encontrado na casa de Orson Welles, após a experiência do criador de Cidadão Kane em It’s all True, parcialmente rodado no Brasil, no começo dos anos 1940. O Welles ‘brasileiro’ faz parte da lenda. Suas noitadas no Cassino da Urca, a amizade com Grande Otelo, o episódio da jangada. Welles tornou-se um material obsessivo para Rogério Sganzerla – Nem Tudo É Verdade. Talvez, portanto, e de uma forma muito atravessada, estejam todos ligados. Welles, Arnold, Del Toro. A questão é que O Monstro da Lagoa Negra – que teve até uma versão musical no teatro! – é um programa atraente, e não apenas por seu parentesco com A Forma da Água. Evoca toda uma era do cinema norte-americano. O temor e o maravilhamento do desconhecido. No seu Dicionário, Jean Tulard reverencia Arnold como mestre do fantástico e destaca seu homem-peixe como notável contribuição ao bestiário cinematográfico, assinalando, porém, a ausência de um órgão reprodutor – que Del Toro acrescentou ao seu monstro. (Ou talvez Del Toro tenha visto Apichatpong Weerasethakul, Tio Bonmee, o episódio em que o peixe penetra a princesa e a faz gozar na água.) Arnold criou Veio do Espaço, Tarântula (monstruosa!) e O Incrível Homem Que Encolheu. Dirigiu até westerns – A Soldo do DIabo, com Jeff Chandler e Orson Welles. Pretendo rever O Monstro da Lagoa Negra, e será no mínimo curioso retomar o contato com duas personagens da minha infância – Richard Carlson e, principalmente, Julie Adams. Ela era o que chamávamos de ‘mocinha’ e dividia a cena de faroestes com James Stewart, Rock Hudson, Glenn Ford, Tyrone Power e Joel McCrea, e depois, na TV, apareceu em episódios de Maverick e The Andy Griffith Show, que eu via na casa de minha tia Maria, quando ainda não tínhamos televisão. Julie Adams está viva, com mais de 90 anos. Nasceu em Iowa e publicou, em parceria com o filho, acho que Michael, não, Mitchell, The Lucky Southern Star – Reflections from the Black Lagoon. Julie tem recebido um monte de troféus ‘life achievement’, de reconhecimento por sua carreira. E eu fui pesquisar e o filho, Mitchell, ela teve com Ray Danton, o gângster Legs Diamond de O Rei dos Facínoras, de Budd Boetticher, talvez o filme mais brechtiano da história do cinema. Jefferson Barros considerava O Rei dos Facínoras a obra-prima de Boetticher, e olhem que, em Porto, nós – Jefferson, José Onofre, Marco Aurélio Barcellos, acho que Enéas de Souza – amávamos seus maravilhosos bangue-bangues. Estou aqui, de novo e sempre, fazendo o que gosto. Viajando…