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Luiz Carlos Merten

18 Maio 2010 | 15h10

CANNES – Perdi a sessão da manhã de ‘Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos’, às 11 horas locais, porque fui entrevistar Jia Zhang-ke. Por mais que goste de ‘Plataforma’ e ‘Still Life’ – como se chamava no Brasil? -, achei ‘I Wish I Knew’ seu melhor filme e não quis perder a oportunidade de voltar a falar com o diretor que jás entrevistara longamente, na Mostra. Jia lembrou-se de nosso encontro em São Paulo, elogiou a Mostra e seu público (ou seja, vocês, cinéfilos). Aguardem ‘I Wish I Knew’. O filme retoma a vertente de ’24 City’, que, não sei por quê, escrevi aqui ontem ’24 Hour City’. Constroi-se entre documentário e ficção, entrevistando 18 personagens para ilustrar as transformações ocorridas na China nas últimas décadas. Entre os entrevistados, há pessoal de cinema. Um colaborador de Michelangelo Antonioni em seu documentário ‘China’, que lembra como o filme foi mal recebido, como contgrarrevolucionário, durante a Revolução Cultural. Cabeças rolaram por isso e Jia lembra o caso para refletir sobre as dificuldades que artistas e técnicos de gerações anteriores à sua enfrentaram durante o ‘ancien’ regime. Gostei particularmente da entrevista com Hou Hsiao-hsien, autor que muito admiro. ‘I Wish I Knew’ escolhe Shangai como centro das transformações que Jia quer documentar, e exibe imagens justamente de ‘As Flores de Shangai’, um dos mais belos filmes de Hou (com ‘Three Times’). Apenas 18 entrevistados não resumem os dramas de miulhões de chineses e, por isso, ele criou a parte ficcional, em que uma atriz passeia pelo filme, como um fantasma, ou representação dos fantasmas desses esquecidos. O festival está no meio, mas arrisco em dizer que ‘I Wish I Knew’ é um dos filmes que vão ficar.