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Luiz Carlos Merten

23 Março 2011 | 17h57

Acabo de entrar no site da 2001 para uma pesquisa e deparei com os novos lançamentos. Vou falar rapidinho de dois. Talvez seja fantasia minha, mas quando vi ‘Cortina Rasgada’, que não é um grande Hitchcock, mas tem cenas magníficas, com Paul Newman e Julie Andrews, tive a sensação de estar revendo ‘O Falso Traidor’, de George Seaton, com William Holden e Lilli Palmer. Mais tarde, ‘A Lista de Schindler’, de Steven Spielberg, com Liam Neeson, me produziu um pouco a mesma impressão. O filme de Seaton é sobre um industrial sueco que vira agente duplo, fingindo apoiar os nazistas para conseguir informações que repassa aos aliados. Baseia-se numa história real (como ‘Schindler’), embora pareça fantasioso (como “Cortina’). Fui ao ‘Dicionário de  Cineastas’ de Jean Tulard. Ele se pergunta, alarmado, de onde veio a fama que Seaton gozou junto aos críticos dos EUA? Roteirista correto, Tulard acha que Seaton deu um jeito de estragar todos os filmes que fez, independentemente de gênero, fossem westerns como ‘Inimigos à Força’ ou melodramas como ‘Garotinho Perdido’. Não discuto que, no geral, ele tenha razão e ‘Aeroporto’, baseado no best seller de Arthur Hailey, é o protótipo do disaster movie que me parece desastroso. Mas tenho de admitir que tenho um fraço por ‘O Falso Traidor’, ou tinha. Há, inclusive, uma cena famosa, quando Holden está preso e os nazistas simulam a execução da mulher que ele ama (Lilli). A cena será boa como parece no meu imaginário? “The Counterfeit Traitor’ é de 1962. O DVD é da Paramount. O outro lançamento em DVD de que quero falar é ‘Viagem Proibida’, da Versátil. Foi o último filme de Vittorio De Sica, lançado no ano da morte do diretor (1974). Ao invés de Sophia Loren e Marcello Mastroianni, De Sica faz Sophia formar dupla com outro famoso astro da época, o sr. Elizabeth Taylor, Richard Burton. ‘Il Viaggio’ baseia-se em Pirandello. Sophia é uma viúva que se envolve com o irmão do marido. É a Sicília e a repressão social e familiar torna a situação suspeita, como se Sophia e Burton já estivessem tendo um affair antes. Como o penúiltimo De Sica, ‘Amargo Despertar’, Una Breve Vacanza, com Florinda Bolkan, ‘Viagem’ trata do afeto. Como Florinda, uma operária embrutecida pelo trabalho que descobre outro mundo, outra vida, no breve período em que vai para uma clínica de repouso, Sophia também renasce e eles planejam essa viagem para se amar. Volto a Jean Tulard. No verbete dedicado ao diretor, ele lembra o legado neo-realista (“Ladrões de Bicicletas’, ‘Umberto D”), mas assinala que o revisionismo crítico está lançando De Sica no limbo. ‘Ladrões’ será o pavoroso melodrama de que o acusam? Há tempos que o conjunto da obra de De Sica vem sendo contestado – pieguice, exploração abusiva das crianças, miserabilismo. Com o diretor, o ator também é lançado ao lixo – De Sica seria, ou é, o estereótipo do italiano macarrônico. Não em ‘De Crápula a Herói’, o ‘meu’ Rossellini, no qual ele é genial. Mas De Sica aceitou muitos compromissos e fez, realmente, filmes indignos. Seu Sartre é medonho, ‘O Condenado de Altona’. ‘Sete Vezes Mulher’, comédia em esquetes com Shirley MacLaine, é nulo e ‘Um Lugar para os Amantes’, com Faye Dunaway e Marcello Mastroianni, consegue ser pior – o ponto mais baixo do cineasta. Mesmo assim, não guardo uma má lembrança de ‘Viagem Proibida’. Até onde me lembro, ele me deu uma impressão de pressa, de desleixo. Só entendi posteriormente. Era como se De Sica solubesse que ia morrer e quisesse terminar o filme rapidamente. E por que ele queria tanto fazer esse filme? Por causa de Pirandello, claro. O dramaturgo de ‘Seis Personagens em Busca de Um Autor’ foi um crítico feroz do progresso. Não que fosse um retrógrado, mas ele não achava que a  máquina traria liberdade alguma para o homem. Pelo contrário, Pirandello antevia tempos sombrios e achava que ela só ia despertar nas pessoas o desejo do supérfluo, que para ele é mortal. Os seis personagens que invadem o ensaio de uma peça de Pirandello expressam/discutem a alienação humana que o escritor, vencedor do Nobel, via cada vez mais forte no horizonte. Essa ‘rebelião’, o desejo de não ser marionete para ser senhor(a) do próprio destino, está na essência do comportamento da dupla, e da Sophia Loren, de ‘Viagem Proibida’. É o que me move a escrever sobre esse De Sica. Ao seu alcance. Na 2001 ou em qualquer locadora próxima de você.

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