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Luiz Carlos Merten

14 Março 2012 | 12h18

Viajei tanto em janeiro e fevereiro – a trabalho, a trabalho –, que somente hoje, procurando nem sei o quê, descobri, entre montes de livros, a caixa de DVDs de fevereiro da Versátil, o que me leva de volta a François Truffaut. São quatro filmes – ‘Quando Descerem as Trevas’, um Fritz Lang; ‘Desejos Proibidos’, Max Ophuls; ‘Os Visitantes da Noite’, Marcel Carné; e um Buñuel, ‘Os Ambiciosos’. La Fievre Monte a El Pao, Buñuel no México, o jato na contramão, Maria Félix e Gérard Philippe. Ele era o maior astro jovem da França, mas, formado na escola de teatro de Jean Vilar e ligado ao cinema de qualidade – havia estrelado ‘Adúltera’, Le Diable au Corps, de Claude Autant-Lara –, virou a Gení do jeune turc Truffaut. Ele, que tanto chorou a morte de James Dean, regozijou-se porque, com Gérard Philippe, morto de câncer, ia-se o cinema de regras fixas, o de estúdio, que tanto abominava. Mais até do que Lara e Philippe, Truffaut exorcizava o aurenche-bostisme, isso é, a influência dos roteiristas Aurenche e Bost, que marcaram uma época do cinema francês. Querendo levar o cinema para a rua, criando uma nova escola de representação (Jean-Paul Belmondo, Jean-Claude Brialy etc), a nouvelle vague, e Truffaut, como seu arauto mais raivoso, elegeram seus favoritos e aqueles a quem deveriam odiar. Até admito – o problema de Truffaut talvez tenha sido morrer cedo, em 1984, aos 52 anos. Entrevistei duas vezes Claude Chabrol depois disso – três – e o tempo, a distância, a própria bonomia do autor o levavam a relativizar tudo. Eu confesso que entendo isso, perfeitamente. Tinha muito mais certezas aos 20 anos. A juventude é naturalmente arrogante. O que a idade me deu, aos 66 anos, foram as dúvidas e tenho sempre a impressão de que elas me tornaram um cara melhor, um jornalista melhor, embora tenha certeza de que, algumas pessoas, se lerem isso, com certeza dirão não (em seu foro íntimo). Não propriamente conectado com o que escrevi até agora, me veio, irresistivelmente, a frase de um dos mendigos de ‘Viridiana’ – alguma coisa como ‘vamos pecar, porque pecar agora nos levará a um melhor arrependimento depois’. É o mesmo sentido do poema (de quem? Pergunto-me sempre) que Charles Morgan usa como epígrafe em ‘A Fonte’. Tu não pecas senão para te submeteres a uma nova purificação. Me afastei muito de ‘Os Ambiciosos’, de Truffaut e Gérard Philippe, mas permaneço com Buñuel e comigo mesmo, e é o mais importante