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Luiz Carlos Merten

23 Maio 2009 | 14h09

CANNES – Cheguei correndo da minha entrevista com Elia Suleiman – otima, como o filme dele, `The Time That Remains` – e adentrei o palais em busca do comunicado com o resultado do premio da critica, que saiu faz pouco. Voces sabem que estou na torcida pelo Suleiman para a Palma de Ouro, mas meu candidato ao premio de mise-en-scene (direcao) eh Michael Haneke, por isso fiquei feliz que `Le Ruban Blanc` tenha recebido o premio da Fipresci. Gostei demais do filme do Haneke, o primeiro dele que realmente mexe comigo, uma especie de `Aldeia dos Amaldicoados` mais politico, mostrando a genese da infancia que, em seguida, na idade mais adulta, forneceu o alicerce ao nazismo. O premio do juri ecumenico (catolico) foi para `Looking for Eric`, de Ken Loach, e eu jah contei para voces como me encantou a historia dos dois Erics, o pequeno, um carteiro, em crise de identidade, e o grande, que eh justamente Eric Cantona, o rei do Manchester United. Somente hoje, validando comentarios, encontrei o do Fabio Negro – foi teu, nao? -, que me chamou a atencao para o fato de aquele post sobre o `rei` Eric ter saido pela metade. Soh para recuperar. Durante a entrevista com Cantona, perguntei-lhe, ah queima-roupa, `Peleh ou Maradona?` Ele havia elogiado Cruyff e o Ajax, dizendo que seu sonho, pos-jogador, seria reinventar o futebol, como fez o cara, e eu lancei a provocacao. Cantona nao precisou pensar, a resposta estava na ponta da lingua – Maradona. Ao seu lado, o roteirista Paul Laverty acrescentou que Maradona, alem de jogador de genio, eh um personagem extraordinario (e mitomano, acrescento eu; como eh mesmo a frase de Maradona: ele nao aguentaria sobreviver ao esquecimento de sua torcida, alguma coisa assim?). Foi na sequencia que Laverty citou Eduardo Galeano, dizendo que o texto do escritor uruguaio sobre o jogador do Boca eh a coisa mais `exciting` que se escreveu sobre futebol. O texto perdido versava justamente sobre isso. Brinquei com Laverty dizendo que ele deveria tentar conhecer alguns escritores brasileiros de futebol. Estava neste ponto do meu texto quando chegou meu amigo Carlos Eduardo, de Londrina, e me anunciou a morte de Mario Benedeti, o autor de `La Tregua`, um belissimo romance que foi adaptado para o cinema. Adorava Benedeti e, com Galeano e suas `Veias Abertas`, a literatura, antes que o cinema, me forneceu o manual de iniciacao ah realidade da America Nuestra. Nao estou reconstituindo o texto, que se perdeu, apenas querendo justificar aquele titulo que mistura Benedeti, Galeano e o rei Cantona. Aproveitando o premio do juri ecumenico para Ken Loach, escrevi no texto do jornal, acho que aqui tambem, que, em pleno mundo globalizado, onde as pessoas sao estimuladas a ser competitivas porque, afinal, vivemos numa sociedade, ou era, que pratica a economia de mercado, o diretor ingles, que nao renegou sua vocacao de esquerda, usa Cantona e o passe dele que vira gol (belissimo) para fazer o elogio da solidariedade e do companheirismo. O juri do OCIC, o Office Cathloique International du Cinema – nao li o comunicado -, deve ter destacado justamente isso. O passe de Cantona, buscando no diretor ingles o parceiro para fazer seu filme, permitiu que Loach fizesse um gol e tanto.