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Recife, a primeira noite

Luiz Carlos Merten

24 Abril 2007 | 11h01

RECIFE – Vou terminar furando o Caderno 2, mas achei sensacional uma coisa que me disse o Jorge Durán, quando o entrevistei domingo, em São Paulo, sobre a próxima estréia, na sexta, do ótimo É Proibido Proibir. Durán fica meio exasperado quando ouve falar em ousadia como condição para um cara ser diretor de cinema. Ele não digere quando lhe dizem que um filme ou diretor, pode ser ele próprio, é ‘ousado’. Ousadia é coisa de bombeiro, que arrisca a vida todo dia, diz Durán. O ofício de cineasta exige lógica e reflexão. O que ele me disse ficou na minha cabeça porque é uma coisa na qual também acredito. E caiu como um raio ontem à noite, quando assisti aos dois longas que inauguraram o Festival do Recife (que, na verdade, se chama, Cine-PE). O primeiro, que participa da competição, Atabaques Nzinga, de Octávio Bezerra, é um musical que faz o resgate da identidade de uma garota negra para quem os tambores ancestrais são a grande referência cultural. O filme mistura tudo. É ficção, docudrama, filme-ensaio. Possui momentos musicalmente fortes – também, com Naná Vasconcelos e Carmen Costa, como não ser forte? -, mas a verdade é que faltaram lógica e reflexão para que o discuroso (detesto a palavra) de Bezerra seja minimamente articulado para o espectador. O segundo longa da noite, O Senhor do Castelo, de Marcus Vilar, dá conta de seu imenso personagem, Ariano Suassuna, e esse é o maior elogio que se pode fazer ao diretor paraibano, por mais que se possam fazer, aqui e ali, reparos ao seu belo filme, exibido fora de concurso. E como Suassuna é engraçado! Como ele diz, é bom que os homens liberem o palhaço dentro deles quando ficam com a mania de grandeza dos reis. O palhaço os humaniza. Suassuna, com todo respeito pelo grande artista, é um palhaço maravilhoso. Sua homenagem ao circo, presente no novo livro, agradaria ao próprio Fellini.