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Cultura » Recados para Marcos e Leandro

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Luiz Carlos Merten

09 Setembro 2008 | 09h06

Marcos pega carona no comentário de ontem do Fernando Meirelles, no ‘Roda Viva’, em que disse que ama o Paul Thomas Anderson. Marcos lembra-se de que, no começo do ano, briguei com Deus e o mundo por causa de ‘Ouro Negro’ e pergunta como fica? Marcos, meu amigo, acho que nunca ficou muito claro e agora é que muitos de vocês vão querer me matar. Adoro ‘Boogie Nights’, ‘Magnólia’, defendi o ‘Embriagado de Amor’ e tenho a impressão de que, na obra de PTA, só não gosto mesmo do ‘Ouro Negro’. Sabem por que? Por causa do Daniel Day Lewis. Não suporto a interpretação narcisista do Day-Lewis, formatada para o Oscar (e ele ganhou). Não adianta nem tentar argumentar. Nunca vi aquele personagem – via sempre o ator. Sorry, mas é o ‘ame-o ou deixe-o’. Gabriel Vilela, grande diretor de atores, acha o Day-Lewis genial no filme do PTA. Eu não consigo gostar. Deixei-o. Bye-bye, Day-Lewis. Leandro me pergunta se vi ‘O Efeito Borboleta’. Cara, é um mistério para mim, que vejo duas ou três vezes cada filme, por que existem alguns que eu não vejo nenhuma. Nunca vi o tal ‘Efeito Borboleta’ e, talvez por isso, na minha cabeça, tendo a misturar esse filme com ‘O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças’ de Michel Gondry (e Jim Carrey). As associações que a gente faz… Se prosseguir por essa linha vou cair no ciclo ‘A Discreta Revolução da Memória’, dedicado a Resnais, no CCBB. Aliás, hoje, às 7 da noite, Ismail Xavier, Inácio Araújo e Fernando Passos discutem o cinema de Resnais. Pode ser bem interessante, mas, de minha parte, quero dizer que há hoje no CCBB outra programação a que gostaria de assistir, mas não sei se vai dar. Às 13 horas e às 19h30, no Pocket Trilhas, o maestro Adail Fernandes mergulha no universo maravilhoso da parceria de Fellini e Nino Rota, com participação do acordeonista Toninho Ferragutti. Se tem acordeão, tem de ter referência àquele tocador cego de ‘Amarcord’. A cena em que ele toca é de uma beleza e de uma tristeza que tocam o sublime. Já houve, no dia 2, outro programa dedicado à dupla Hitchcock/Bernard Herrmann. Vai haver outro, no dia 16, com a música das chanchadas da Atlântida. Os artistas tocam e um telão exibe as cenas dos filmes. Que viagem deve ser, hein? De volta ao Leandro, e ao ‘Efeito Borboleta’, ele conta que leu em alguma parte que o roteiro do filme mofou em gavetas de Hollywood antes de virar filme. Leandro me pergunta se existem muitos casos assim. Existem – filmes que passaram por diversas mãos e demoraram para ser feitos; roteiros que ficaram malditos e nunca foram filmados. Isso para não falar nos roteiros que eram considerados infilmáveis. Luchino Visconti e Joseph Losey sonharam durante anos com a a adaptação de ‘Em Busca do Tempo Perdido’ e os roteiros dos filmes que ambos pretendiam fazer, a partir da série de romances de Marcel Proust, escritos respectivamente por Suso Cecchi d’Amico e Harold Pinter, chegaram a ser publicados. No final, partes do romain-fleuve foram filmadas por Volker Schlondorff e Raul Ruiz, mas não com base nos roteiros de Visconti e Losey. Buñuel e parece que Losey também se interessaram por ‘À Sombra do Vulcão’, de Malcolm Lowry, mas não conseguiram transformar o livro mítico em roteiro. Guy Gallo terminou fazendo uma adaptação que John Huston filmou. É o papel definitivo da vida de Albert Finney e a odisséia do diplomata bêbado em Cuernavaca, no Dia dos Mortos, de alguma forma preparou o grande Huston para seu opus final, que eu acho um de seus mais belos filmes, ‘Os Vivos e os Mortos’ (baseado em Joyce, ‘Os Dublinenses’).