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Luiz Carlos Merten

05 Janeiro 2010 | 23h54

Mário Kawai havia acrescentado seu comentário, falando sobre o ciclo de filmes japoneses do Centro Cultural São Paulo antes que eu tratasse do assunto, mas com o viés que me interessava e que era privilegiar o Masaki Kobayashi de ‘Harakiri’. A propósdito, creio que já me referi a esse livro de referência que possuo, a ‘Enciclopédia de Cinema’ de Roger Boussinot. Como estou agora em casa, me deu a curiosidade de ver o que a enciclopédia diz sobre o grande diretor de ‘Harakiri’ e ‘Rebelião’. Kobayashi é definido como o melhor exemplo de autor japonês ‘engajado’ e Boussinot cita um filme que não conheço. DE uma série de folhetins para TV, o diretor retirou, em 1973, ‘Kaseki’ (Os Fósseis), uma espécie de investigação sobre as origens da civilização e da vida, feita através do mundo por um empresário que é paciente terminal de câncer, sendo o tempo todo acompanhado por uma jovem (que representa a morte). Interessou-me o que diz o verbete – ‘O filme tem várias cenas, especialmente perto do fim, que são, em si mesmas, verdadeiras obras-primas’.
Rodrigo, em outro comentário, de outro post, me pede que fale sobre Hal Ashby. Temo decepcionar o Rodrigo com a minha falta de entusiasmo pelo diretor que morreu em 1988, aos 52 anos. Ashby começou como montador, trabalhando especialmente com Norman Jewison. Passando à direção, fez filmes com temas que incomodavam e o problema é que o público não queria ser incomodado (pelo menos não incomodado por ele). É o que afirma Jean Tulard no ‘Dicionário de Cinema’. Da produção de Ashby, não tão extensa assim, apenas ‘Ensina-me a Viver’ (Harold e Maude) arrebentou na bilheteria. O filme teria virado cult de qualquer maneira, por seu tema – o amor de uma octogenária que desenvolve num garoto de 20 anos o prazer de viver. Ashby filmou o racismo (‘Amor sem Barreiras’), a arte engajada num período de crise (‘Esta Terra É Minha Terra’), a guerra e suas consequências (‘Amargo Regresso’). Tulard chega a sugerir que lhe faltavam vigor e talento, mas eu não sou tão radical. Gosto de ‘A Última Missão’, com Jack Nicholson, e acho muito bonito outro filme de Ashby, embora até hoje não saiba se o que me atrai em ‘Muito Além do Jardim’ é o tema, adaptado do livro de Jerzy Kocinski, ou a interpretação genial de Peter Sellers. Ele faz esse sujeito que viveu a vida inteira confinado, permanecendo inocente (ou ‘infantilizado’). O acaso o leva a se aproximar do presidente dos EUA, que se torna dependente das observações banais de Chance, é o nome do personagem, mas que o dirigente encara como revelações transcendentes. O livro chama-se ‘O Videota’ e tudo o que Chance sabe do mundo foi o que viu na TV. Mais do que sátira à Casa Branca, o filme é uma sátira ao poder da TV, apenas uma década depois que McLuhan teorizou sobre o poder dessa mídia. Ah, sim, me divirto bastante, também, com ‘Shampoo’, em que Warren Beatty banca o gigolô de todas aquelas mulheres maravilhosas (Julie Christie, Goldie Hawn, Lee Grant etc) e o diretor se interroga se isso será ‘ético’? Não sei por que, não tem nada a ver, mas ao escrever isso – a questão da dignidade humana, não apenas masculina – me lembrei da frase do gigolô de ‘Terras do Sem Fim’, de Jorge Amado, que dizia que ser gigolô é a mais digna profissão do homem. Afinal, Jean Tulard talvez tenha mesmo razão quanto à ‘debilidade’ de Hal Ashby. Ele transforma em drama – tragédia? Farsa? – o que Jorge Amado escracha, para ser mais eficiente.