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Luiz Carlos Merten

17 Junho 2010 | 19h57

Rafael, meu amigo, que que é isso? Quando falo em filmes ruins de que gosto nem me passa pela cabeça incluir o ‘Nine’, de Rob Marshall, que iria ao inferno para defender. É maravilhoso e só o  número de Seraghina vale ‘Chicago’ inteiro. O problema de ‘Nine’ é estar sendo avaliado por gente que, no Brasil, deve tomar como parâmetros essas coisas horrorosas da dupla Botelho/Mueller. Recado para outro amigo, o Marcelo (Magalhães). Ele reviu pela ‘enésima’ vez ‘O Homem Que Matou o Facínora’ e é seu Ford favorito. Não discuto, porque também gosto muito, mas aproveito para lembrar que, quando o filme estreou, raros foram seus defensores. Antônio Moniz Vianna, fordiano de carteirinha, foi a exceção e ele chegou a escolher John Wayne como melhor ator do ano, no extinto ‘Correio da Manhã’. A maioria da crítica não entendeu que o mestre tenha feito um western ‘indoors’, com muitas cenas de interiores, e no qual as raras externas parecem feitas em estúdio. A famosa Pauline Kael deve ter escrito seu pior texto demolindo ‘Liberty Valance’.  É interessante lembrar que o filme é de 1962, portanto contemporâneo de ‘Pistoleiros do Entardecer’, de Sam Peckinpah, e ambos os autores, o veterano e o pouco mais que estreante, se lançam ao revisionismo, refazendo a história do Oeste. Só que, me perdoa Marcelo, mas ‘Rastros de Ódio’ consegue ser ainda melhor, sim, pelo menos eu acho (e sei que não estou sozinho). De toda a imensa obra-prima que é ‘The Searchers’, o ‘meu’ momento não é nenhum daqueles que fazem a glória do filme (a porta abrindo-se para a chegada de John Wayne no começo e fechando-se sobre ele, lá fora, no final; Wayne, de novo, que abre os braços para acolher Natalie Wood no desfecho etc). A minha cena favorita é outra. Ford, o Homero de Hollywood, contou muitas odisseias de grupos, embora justamente ‘Rastros de Ódio’ narre a tragédia de um individualista. No cinema de Ford, o lar, a casa, é muitas vezes um ideal que certos personasgens não se permitem – como John Wayne, em ‘Liberty Valance’, fazendo o que faz para salvaguardar a união de James Stewart e Vera Miles (a mulher que ama). A grandeza dos derrotados é o tema fordiano por excelência, mas o porto seguro, ao fim da odisseia – a civilização, impondo-se à barbárie -, é outra coisa maravilhosa. A cena é a de Hank Worden, o mais patético dos heróis fordianos, que acompanha boa parte da trajetórias errante de John Wayne e Jeffrey Hunter, isto é, Ethan Edwards e Martin Pawley. Não conheço nada mais belo do que a imagem de Hank Warden, quando ganha aquela cadeira de balanço, que passa a ser seu patrimônio, e se senta nela, feliz da vida de estar olhando para a imensidão de Monument Valley. Não tenho vergonha de dizaer que, só de me lembrar, estou redigindo esse post com os olhos, como se diz?, ‘rasos d’água’. (Por falar em lágrimas, ‘O Homem Que Matou o Facínora’ se encerra com aquela imagem do velho, Andy Devine, que chora, lembram-se?) Algum outro recado? Ah, sim, Jotabê Medeiros veio esfregar na minha cara o texto de Tom Leão no ‘Globo’ de hoje, colocando ‘Kick Ass’ nas nuvens. ‘Olhaí, alguém que entende de cultura pop’, provocou o Jota. Escandalizo-me só de pensar que na sessão em que vi ‘Kick Ass’, com a tal garotada pop, a piada que mais provocou riso foi aquela sobre ‘Lost’. Ave Maria! Como é mesmo que dizia o Marx, o velho Karl? A tragédia se repete como farsa? Não será como paródia? Que paródia, que nada. É sem graça mesmo.

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