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Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2008 | 14h22

Esquecia-me. Ontem, depois de ‘Guerra e Paz’, estava jogado, fui procurar um livro para ler e, mexendo numa pilha, encontrei o DVD de ‘Samurai Rebellion’, que havia comprado na edição da Criterion. ‘Samurai Rebellion’ é o título em inglês de ‘Rebelião’, ‘Joy-Uchi’, que Masaki Kobayashi realizou em 1966. Exagerado ou passional – depende do ponto de vista – como sou, queria incluir um capítulo sobre o cinema japonês em meu livro ‘Cinema – Entre a Realidade e o Artifício’, mas achei que seria muito fácil falar desses autores mais do que consagrados. Ozu, Mizoguchi ou Kurosawa. Fui em busca de Kobayashi e, embora mapeando a carreira do grande diretor – a trilogia ‘Guerra e Humanidade/A Condição Humana’, ‘Hara-Kiri’ e ‘As Quatro Faces do Medo’, concentrei-me em ‘Rebelião’, que é meu favorito. Chego a dizer que é a obra-prima do cinema japonês de todos os tempos. Na primeira edição do livro, ‘Cinema – Um Zapping de Lumière a Tarantino’, também decidi que seria muito fácil, além de pouco sincero da minha parte, usar Glauber Rocha para falar sobre o cinema brasileiro e escolhi ‘São Paulo S/A’, de Luiz Sérgio Person, sobre o qual não se falava tanto em 1994. Rever ‘Rebelião’ foi a glória. Kobayashi já desmontara os mitos e códigos de honra do velho Japão feudal em ‘Hara-Kiri’, mas o que ele faz aqui vai muito além disso. Engraçado, mas somente ontem dei-me conta de que o filme foi produzido por Toshiro Mifune, que havia brigado com Akira Kurosawa durante a filmagem de ‘O Barba Ruiva’, encerrando a amizade e a parceria. O próprio Mifune reservou-se o papel de Isaburo Sasahara, o kurosawiano samurai que ocupa o centro dessa tragedia em forma de painel histórico. Isaburo é o homem ético por excelência. Ele enfrenta as arbitrariedades de um suserano que, para tentar dobrá-lo, chacina sua família. Isaburo resolve levar sua denúncia ao poder central. O suserano contrata outro samurai para impedir que ele chegue a seu destino. É interpretado por Tatsuya Nakadai, que já havia sido o vilão, enfrentando Mifune em dois clássicos de Kurosawa, ‘Yojimbo’ e ‘Sanjuro’, além de ser o ator-fetiche de Kobayashi em todos os seus grandes filmes. Imagino que Kurosawa tenha visto ‘Rebelião’ e, agora, já sou eu delirando – o ‘Imperador’, como era chamado, era gênio, mas tinha um temperamento difícil. Não admitia ser contestado, e menos ainda no set, onde Mifune ousara interpelá-lo, perante a equipe, dizendo que tal cena ficaria melhor de outro jeito. Quem garante que Kurosawa não fez de Nakadai o ator de suas obras testamentais, ‘Kagemusha’ e ‘Ran’, contra Mifune? Seja como for, o desfecho de ‘Rebelião’ é um dos mais extraordinários da história do cinema e eu não exagerava, o filme é ‘a’ obra-prima do cinema japonês, que me perdoem todos os demais mestres. Nakadai chama-se Asano em ‘Rebelião’. É ainda melhor espadachim do que Isaburo, e o dever, o bushido, o código de honra dos samurais, exige que ele mate o adversário, pois para isso foi contratado. Mas Asano reconhece a justeza da luta de Isaburo. Sabe que, se matá-lo, estará indo contra uma ética que também é dele. O que faz? Fere o amigo, mostrando que é melhor e que venceria, se quisesse – e, em seguida, retrocede, tornando a própria morte a suprema forma de triunfo. Deus, que este filme é lindo! Chorei a ponto de me desidratar. Ñão sei de vocês. Talvez pela pequenez da vida da gente, mas eu preciso dessa grandeza, dessa forma de consolo que só a arte me dá (e na qual Van Gogh também acreditava, conforme relata em carta ao irmão Theo). Agora, antes de escrever o post, fui à velha coleção de ‘Guia de Filmes do INC. Lembrava-me de que havia uma crítica do filme, escrita por Paulo Perdigão, que se escandaliza por ‘Rebeliao’ ter sido recusado pela comissão de seleção do Festival de Veneza de 1967. Perdigão é louco por ‘Rebelião’. Ele é autor do livro ‘Shane: Western Clássico’, sobre ‘Os Brutos também Amam’, de George Stevens, que alguerm citou aqui no blog. no outro dia, a respeito de não me lembro mais qual western. Em ‘Shane’, Perdigão faz uma análise extraordinária do filme, em particular, e dos códigos do gênero, em geral. O desfecho, o duelo entre Shane e Wilson, entre Alan Ladd e Jack Palance, opõe o bem e o mal, mas possui a mesma solenidade do confronto de sabres entre Isaburo e Asano. Tanto quanto é preciso que Shane vença para realizar o mito e partir solitário – para que o garoto, Joey, isto é, nós, o público, privados dele, possamos cortar o cordão umbilical com a obra -, é necessário que o embate final de ‘Rebelião’ não tenha vencedores. Não sei se ‘Rebelião’ teve algum desses lançamentos pirateados em DVD. Espero que não. A Versátil poderia lançá-lo na versão da Criterion, e com os extras o que o cinéfilo tem direito. Acho que hoje não vou escrever mais nada. Depois de ‘Rebelião’, escrever sobre o quê? Bons programas para vocês, quaisquer que sejam os filmes escolhidos entre os que estrearam na quinta…