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Luiz Carlos Merten

05 Fevereiro 2012 | 21h08

PARIS – Gostaria de ter visto mais filmes neste domingo, mas entre matéria para o jornal – os indefectíveis filmes na TV -, mais um passeio por Les Halles e uma ida ao museu – era o último dia da exposição de Le Clezio no L0uvre -, sobrou tempo para dois filmes, apenas. Vi à tarde ‘La Folie Almayer’, de Chantal Akerman, baseado no livro de Joseph Conrad, e à noite ‘Shame’. Ainda estou em choque com o filme de Steve McQueen. E o que é aquele Michael Fassbender? Ia fazer uma pesquisa para ver se ele está no Oscar, mas não, claro que não. Hollywood não tem culhão para bancar um filme em que o protagonista é um priáprico que passa o tempo todo de p… duro, exceto quando encontra uma mulher que pode representar um comprometimento afetivo e aí ele desaba. Como se conta uma história dessas? No começo, Fassbender passa sua genitália para lá e para cá, duas vezes, de forma a que o espectador veja a generosidade com que o tratou a natureza, mas depois a viagem é muito mais mental, e sem as simplificações psicanalíticas de praxe. O herói tem uma irmã suicida (Carey Mulligan), ambos são miseráveis, no sentido de solitários, angustiados e insatisfeitos, mas como ela diz, são boas pessoas e o problema é de onde vieram. McQueen não cede à tentação de algum flash-back explicativo e eu confesso que, no limite, o que me irrita em ‘J Edgar’, já que se trata tudo de uma viagem – duvido muito que todas aquelas cenas sejam documentadas, são liberdades de Clint e seu roteirista para ficcionalizar o personagem – é a facilidade da mãe possessiva para explicar a sexualidade reprimida de Hoover. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, estou misturando, mais uma vez, mas fiquei chapado com o filme de Steve McQueen, tentando achar meu centro até agora. Já havia entrado mais ou menos assim no MK Hautefeuille, depois de assistir em outro MK2, no Beaubourg, a ‘Almayer’. Na vertente de Claire Denis, Chantal filma, na selva do Camboja, uma história que trata de relações coloniais, de um pai europeu que rejeitou a flha bastarda e agora que ela se apaixonou por um nativo tenta resgatá-la. Não sou ‘akermaniano’ de carteirinha, mas não me lembro de outro filme de Chantal, nem ‘a Captive’, que fosse tão sensual e sensorial, com essas imagens da selva. Fiquei pensando – qual é o tema de ‘Almayer’? É o tempo. Tudo se passa como num teatro de paixões, mas gélido, contra o fundo de um rio muitas vezes tempestuoso cujas águas estão sempre em movimento. E os atores, ou o ator. Stanislas Merhar não é Michael Fassbender, mas tem uma melancolia e uma intensidade que enchem a tela. Ia ver mais um filme no fim de noite, mas achei melhor jantar e voltar para o hotel. RAZ ficou para amanhã. Quem? Rabah Ameur Zaimeche. Os franceses estão siderados com seu mais novo autor político. ‘Transfuge’ lhe dedica um dossiê, ‘Cahiers’, ‘Positif’ e até as populares ‘Première’ e ‘Studio’ lhe tecem loas. Amanhã vou conferir o que ‘Les Chants de Mandrin ‘ tem de tão subversivo e apaixonante.

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